A filosofia “implica em embates” e o ato de filosofar exige “sensibilidade para escutar a voz da tradição” e disposição para “aceitar o conflito e o dissenso” inerentes à atividade filosófica, recomenda o professor aos estudantes de filosofia.

Motivado pelo desejo de se situar frente à tradição de pensadores que o precederam, Roberto Wu encontrou nas obras de dois filósofo alemães, Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer, não só a base para o desenvolvimento das suas próprias pesquisas filosóficas, mas uma fonte para refletir e compreender a realidade. “Compreender é sempre estabelecer um diálogo com os outros, o que não implica, naturalmente, que sempre se aceite o que o outro defende”, diz. Nesta entrevista, concedida por e-mail ao homo philosophicus, ele comenta algumas de suas pesquisas sobre hermenêutica e a relação entre filosofia e literatura russa, e sugere formas de abordar filosoficamente as obras de Dostoiévski. 

Roberto Wu leciona nos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e participa de grupos de pesquisas em várias instituições: Núcleo de Investigações Metafísicas, na UFSC; Fenomenologia, Ontologia e Hermenêutica, na UFPR e Hermenêutica em Filosofia e Literatura, na Unisinos.  

A seguir, a entrevista.

homo philosophicus – Suas pesquisas perpassam diversas áreas da filosofia: hermenêutica, ontologia, fenomenologia, retórica, filosofia da arte, filosofia da tecnologia, dialogando com Heidegger, Gadamer, Benjamin, Lévinas, Ihde e Dostoiévski. A partir dessas diferentes abordagens, o que é filosofia, professor Roberto? 

Roberto Wu – A própria questão, tal como você a formula, indica que não a concebo a partir de uma unidade fechada, mas por sendas que podem eventualmente se encontrar, embora isso não seja necessário. A filosofia remete à origem grega, mas também a seus ecos e suas derivações, que nem sempre têm uma ligação direta com essa fonte, tão complexa a filosofia se tornou em milênios. Portanto, conceitos originários da filosofia, como, ser ( òn), ente ( ónta) substância (ousía), natureza (phúsis), discurso (lógos), princípio (arché) e verdade (alétheia), são constantemente revisitados, em vista de sua fecundidade, ao mesmo tempo em que surgem novas questões e temáticas como formas absolutamente genuínas de continuar o legado da filosofia.  

Prof. Dr. Roberto Wu

hp – Como iniciou seu interesse pela filosofia? 

Roberto Wu – Comecei o curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná – UFPR em 1997, atraído pela possibilidade de pensar algo próprio, de me situar frente à toda uma tradição de importantes pensadores, e contribuir de alguma forma para a comunidade, debatendo questões relevantes para a nossa época. Encontrei na filosofia um saber rigoroso e, simultaneamente, um exercício de liberdade de pensamento.  

hp – Como o senhor estuda? 

Roberto Wu – No mais das vezes, o interesse despertado por certo aspecto de um tema já circunscreve a perspectiva de pesquisa. A partir disso, reúno o material que tenho disponível e faço uma pesquisa sobre outros artigos e livros relacionados ao assunto. A partir do esquema inicial, leio os capítulos ou os artigos que destacam os pontos interessantes para a minha abordagem, fazendo simultaneamente uma série de anotações. 

hp – Obras de Gadamer e Heidegger são centrais nas suas pesquisas de mestrado e doutorado. Como chegou a esses autores e quais problemas filosóficos tratados por eles despertaram seu interesse? 

Roberto Wu – Durante a minha graduação, ao ler o último capítulo de A filosofia e o espelho da natureza, de Richard Rorty, entrei em contato com uma série de filósofos que não conhecia até então e que pareciam oferecer uma abordagem filosófica mais próxima do que eu gostaria de fazer, com uma leitura mais contextualista da significação. Além do chamado segundo [Ludwig] Wittgenstein, que já estudava, fui apresentado às teorias de [William] James e [John] Dewey (pragmatismo), assim como às de [Martin] Heidegger e [Hans-Georg] Gadamer (hermenêutica). Na medida em que parte do fenômeno da interpretação, que é imanente a todos os nossos atos, a hermenêutica permite a análise de situações cotidianas e mostra como o saber humano se alicerça em elementos históricos e contextuais, ou, mais precisamente, em elementos prévios relativos à situação hermenêutica do intérprete.  

Se a verdade é um acontecimento, a tarefa filosófica consiste em interpretar adequadamente o que se mostrava em cada situação, levando em consideração a possibilidade de que algo fundamental possa se encobrir nesse mostrar-se

Por outro lado, ambos, Heidegger e Gadamer, trabalham com uma concepção de verdade que incorpora a historicidade da interpretação em seu núcleo. Se a verdade é um acontecimento, a tarefa filosófica consiste em interpretar adequadamente o que se mostrava em cada situação, levando em consideração a possibilidade de que algo fundamental possa se encobrir nesse mostrar-se. Em Heidegger, o que se encobria na história do Ocidente, embora com acenos esporádicos, era a questão do ser. Ao recolocá-la, Heidegger descerrava o horizonte de significação para além de esquemas filosóficos cristalizados na tradição, ao mostrar a correlação de cada elemento que constitui a nossa existência com a compreensão de ser. Na hermenêutica de Gadamer, encontrei uma discussão mais detida sobre como a nossa compreensão de ser consistia sempre, ao final e ao cabo, em um tipo peculiar de diálogo.  

hp – No mestrado, seu tema de pesquisa foi a herança de Heidegger na hermenêutica de Gadamer e no doutorado, dedicou-se exclusivamente ao problema do novo em Heidegger. Como foi seu percurso de pesquisa e que conexões existem entre essas duas temáticas? 

Roberto Wu – Em minha dissertação de mestrado, procurei mostrar como um estudo da filosofia heideggeriana era imprescindível para se apreender o projeto hermenêutico de Gadamer, para além das indicações que este dá em seu capítulo dedicado a Heidegger, em Verdade e Método. Em especial, procurei mostrar como a temática da fusão de horizontes se beneficia de uma análise mais cuidadosa da cotidianidade e da decadência, do existencial do ser-com, das dimensões da abertura, da historicidade, do tema da destruição da tradição, e da questão da correlação entre compreensão e linguagem.  

Uma das críticas mais recorrentes à hermenêutica, em especial à de vertente gadameriana, era a de um suposto conservadorismo – tal como formulado por [Jacques] Derrida ou [Jürgen] Habermas –, em vista da centralidade da tradição. Para mim, era claro que uma resposta para esse tipo de crítica, se fundada na hermenêutica, não poderia simplesmente ignorar os efeitos da tradição, mas teria de elevar a um nível ainda mais radical os sentidos da nossa pertença à tradição. Um caminho possível para essa investigação foi o desenvolvido na tese de doutorado, quando me voltei especificamente para a filosofia de Heidegger, para explicitar as estruturas de ruptura em sua ontologia. Se há um acontecimento incomensurável e não-derivativo em Ser e tempo, é o tema da existência própria. Esta não se segue progressivamente da existência imprópria; antes, ela surge no instante (Augenblick), a partir de um salto (Sprung) arriscado. A existência própria é algo completamente novo e não redutível aos momentos existenciais anteriores.  

Por outro lado, a constituição histórica fáctica e a pertença à tradição não cessam; o que se dá é que simplesmente o todo da existência é afinado de um modo novo. Após o período da ontologia fundamental, Heidegger deslocaria cada vez mais a discussão ontológica para uma perspectiva da história do ser, em vez de uma analítica do ser-aí (Dasein). Como representativo desse momento, detive-me na obra Contribuições à filosofia, e defendi a interpretação de que o novo na história, numa perspectiva ontológica – não mais no contexto da analítica existencial do ser-aí, e sim relativo à história do ser –, deveria levar em consideração dois vetores: o primeiro começo (erste Anfang), a aurora inaugural dos gregos, bem como seu ocaso no esgotamento metafísico moderno, e o outro começo (andere Anfang), não concebido como sendo mais uma época da história da metafísica, mas o seu outro, pensado a partir de sua distância abissal em relação ao primeiro começo. Em ambos os casos, o novo não é da ordem do forjado ou do que é produzido pela vontade, mas imprevisto e incontrolável. 

Na hermenêutica de Gadamer, encontrei uma discussão mais detida sobre como a nossa compreensão de ser consistia sempre, ao final e ao cabo, em um tipo peculiar de diálogo

hp – Durante três anos, um dos seus projetos de pesquisa teve como finalidade esclarecer o significado do termo “facticidade” nas obras de Heidegger anteriores a Ser e Tempo. Qual é significado desse conceito e sua centralidade na hermenêutica de Heidegger nessas obras? 

Roberto Wu – “Facticidade” é um termo nuclear para se compreender a filosofia heideggeriana, pois exprime o fato de já estarmos em movimento em nossos comportamentos de mundo e, consequentemente, que qualquer ato de significação, mesmo o mais abstrato, está ancorado em uma realidade concretamente vivida. Com isso, Heidegger pôde mostrar como a atitude teórica e abstrata, característica de certa forma de se fazer ciência e/ou filosofia, era já derivativo de relações mais complexas e ricas que compunham relações concretas de mundo. Assim, o conceito de facticidade interdita investigações que pretendem analisar o assunto pesquisado de modo completamente abstrato e neutro, que desconsideram a historicidade e o caráter pré-judicativo (preconceitual) da situação hermenêutica do pesquisador e, por este motivo, negligenciam o fato de que cada investigador tem algo a dizer sobre o assunto investigado, em vista de sua compreensão prévia. Não se trata, obviamente, de defender que se permaneça necessariamente com a perspectiva elaborada na compreensão prévia, mas de ressaltar sua relevância na constituição do sentido.   

hp – Em que consiste o aspecto prático da hermenêutica filosófica, segundo Gadamer? Por que ele propõe uma dimensão prática da hermenêutica filosófica, para além de uma metodologia auxiliar de interpretação de textos? 

Roberto Wu – Para Gadamer, a interpretação e a compreensão são pensadas existencialmente, e não como momentos episódicos de uma metodologia. Dessa forma, interpretamos sempre e transitamos numa compreensibilidade, seja lendo um texto, escutando uma música, fazendo testes em laboratório, buscando orientar-se no trânsito, fazendo um esporte. Toda a interpretação envolve uma relação com a existência concreta do intérprete e, portanto, com a sua realidade pré-judicativa (preconceitual). Contudo, o modo de elaboração da interpretação é sempre na forma de um projeto compartilhado com os outros; por isso, compreender é sempre estabelecer um diálogo com os outros, o que não implica, naturalmente, que sempre se aceite o que o outro defende. Em certo sentido, toda a possibilidade de uma coexistência depende necessariamente do estabelecimento de um horizonte de compreensibilidade comum, o que não significa a mesma visão ou até mesmo concordância de perspectiva, mas a delimitação de um horizonte sustentado performativamente por atos de significação – o que Gadamer denomina eventualmente de fusão de horizontes. 

Toda a possibilidade de coexistência depende necessariamente do estabelecimento de um horizonte de compreensibilidade comum, o que não significa a mesma visão ou até mesmo concordância de perspectiva

hp – A sua pesquisa sobre hermenêutica e retórica tem como objetivo identificar os pontos de tensão nas obras de Heidegger, Gadamer e Ricoeur, em relação às obras dos representantes da retórica clássica, como, Aristóteles, Cícero, Quintiliano e Vico. Quais são os pontos de tensão? 

Roberto Wu – É inegável a proximidade entre a hermenêutica contemporânea, representada por Heidegger, Gadamer e Ricoeur, e a retórica clássica. Não é tarefa difícil reconhecer a similaridade entre a historicidade da compreensão manifesta na situação hermenêutica e o apelo retórico à ocasionalidade, ou que, enquanto os hermeneutas reivindicam a centralidade da linguagem como desencobridora, os retóricos chamam atenção para a importância do discurso que descreve vividamente determinado tema. Apesar disso e da filiação da hermenêutica à história da retórica, há rupturas bem significativas. Se Heidegger recupera a ênfase retórica no pathos, como modo de persuasão, incorporando-o à ontologia fundamental através do existencial da afinação (Stimmung), como, por exemplo, o medo, a angústia, e o tédio, em autores como Gadamer e Ricoeur, a teoria dos afetos não desempenha um papel central. Por outro lado, na retórica clássica, há problemas filosóficos característicos de seus momentos históricos, como a falta de concepção mais radical de história ou a fundamentação, em alguns casos, de sua teoria da linguagem e da verdade numa teoria da representação e da mente, elementos criticados exaustivamente pela hermenêutica contemporânea. 

hp – No artigo Transcendência originária e possibilitação: sobre o problema da intencionalidade na ontologia fundamental, o senhor argumenta que apesar de reconhecer a relevância da intencionalidade, Heidegger a subordina à noção de transcendência. Qual é a novidade dessa compreensão para entender a fenomenologia heideggeriana? 

Roberto Wu – Trata-se de uma contribuição que pode auxiliar àqueles que têm interesse na fenomenologia de Heidegger. Em geral, o conceito de intencionalidade, normalmente tomado a partir de sua matriz husserliana, é empregado por comentadores e pesquisadores para se referir à fenomenologia de Heidegger, sem a devida mediação. O meu artigo procura mostrar que Heidegger utiliza raramente esse termo e que, quando o faz, normalmente está se referindo à tradição fenomenológica pregressa, isto é, Husserl e Brentano. Heidegger eventualmente a substitui pelo termo transcendência, que traz um sentido ontológico mais próximo do que desenvolve como ontologia fundamental. Em suma, se a conceitualidade de fundo da noção de intencionalidade não coloca diretamente a questão do ser, o conceito de transcendência é um termo eminentemente ontológico, pois se refere à diferença ontológica, isto é, à impossibilidade de redução do ser ao ente. Em todos os nossos comportamentos o âmbito simplesmente ôntico é ultrapassado em direção às suas possibilidades de ser, a partir de um ente (Dasein – o ente que somos). Transcendência é, portanto, um termo mais adequado para indicar o âmbito de abertura projetiva do ente que somos. 

hp – O seu interesse em Kierkegaard está ligado aos seus estudos da obra de Heidegger? Que relações existem entre o pensamento de ambos e como e quais questões filosóficas abordadas pelo filósofo dinamarquês influenciaram o pensamento filosófico de Heidegger? 

Roberto Wu – Inicialmente o meu interesse em Kierkegaard foi motivado pela apropriação heideggeriana deste autor em Ser e tempo. A temática da impessoalidade ou do “a gente” (das Man), da angústia, ser-para-a-morte, da existência própria, das formas próprias das ekstases temporais – antecipação, repetição e instante, e da liberdade –, são todos assuntos que já haviam sido elaborados por Kierkegaard.

É praticamente impossível não reconhecer o teor kierkegaardiano nos textos que Heidegger escreve

A análise da angústia em Ser e tempo, que combina elementos da análise kierkegaardiana das formas da angústia, mas também do desespero, além do problema da liberdade, é muito mais sucinta do que os respectivos tratados de Kierkegaard sobre os assuntos (cf. O conceito de angústia O desespero humano), o que sugere que há muito a aprender a respeito desses tópicos com o filósofo dinamarquês. Da mesma forma, Kierkegaard dedica uma obra inteira para desenvolver o conceito de repetição, ao passo que Heidegger se apropria desse tema e o expõe em poucas linhas em Ser e tempo. A apropriação do pensamento do filósofo dinamarquês por Heidegger é, consequentemente, diluída e nem sempre referenciada. Ao mesmo tempo, é praticamente impossível não reconhecer o teor kierkegaardiano nos textos que Heidegger escreve até e durante a era da ontologia fundamental.  

hp – Quais leituras sugere para quem tem interesse em estudar as obras de Heidegger? 

Roberto Wu – Uma boa introdução a Heidegger e que auxilia a contextualizá-lo em relação aos outros autores de hermenêutica é o livro de Richard Palmer, Hermenêutica (Lisboa: Ed. 70, 1999). Por outro lado, os livros de Christian Dubois, Heidegger – Introdução a uma leitura (Rio de Janeiro: J. Zahar, 2004) e de Otto Pöggeler, A via do pensamento de Martin Heidegger (Lisboa: Piaget, 2001) trazem um bom panorama da obra heideggeriana. Além disso, o Dicionário Heidegger, de Michael Inwood (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002) é sempre de grande ajuda.  

Por fim, penso que o grande livro escrito no Brasil sobre Heidegger, e um dos responsáveis por despertar o meu interesse no filósofo, é Passagem para o Poéticode Benedito Nunes (São Paulo: Ática, 2002). Não é, por assim dizer, um livro introdutório, mas certamente há algo no estilo e no pensamento do filósofo paraense que é, por excelência, simultaneamente poético e fenomenológico, o que, nesse sentido, pode ser um exercício preparatório para a leitura de Heidegger. 

hp – Suas pesquisas também tratam do tema do niilismo na literatura. Como surgiu seu interesse por essa temática, em particular nas obras de Dostoiévski e Turguêniev? 

Roberto Wu – O interesse no niilismo é derivado, em certo sentido, dos estudos de [Friedrich] Nietzsche. Contudo, ao ler com mais cuidado a obra de [Fiódor] Dostoiévski, percebi nuances no tratamento do tema, em sentidos bem diferentes daqueles que o próprio Nietzsche tematizaria posteriormente. Enquanto Nietzsche trata do niilismo, seja em sua acepção passiva quanto ativa, no âmbito genealógico, cuja marca no momento histórico atual seja a de uma vontade de nada, a abordagem de Dostoiévski é plural, devido à sua polifonia, e não restritiva, ou seja, não interessa ao escritor russo elucidar e combater uma determinada teoria niilista, mas mostrar diversas facetas do niilismo. Cabe mencionar que se utilizamos o mesmo termo para ambos os autores, o seu referencial teórico é bem diferente, assim como seus objetivos. 

Se Turguêniev populariza o termo niilismo na literatura russa, seria Dostoiévski que levaria às últimas consequências o filão aberto por aquele

A relação entre Dostoiévski e [Ivan] Turguêniev é ainda mais interessante. Turguêniev já era um autor consagrado quando Dostoiévski surge – não iremos nos estender sobre as relações de amizade e de discórdia entre eles nem sobre as suas afinidades e desavenças teóricas. O que importa é que com a publicação de Pais e Filhosde Turguêniev, em 1862, introduz-se um personagem inequivocamente niilista (Bazárov), o que seria um acontecimento que impactaria na produção de Dostoiévski, ele mesmo envolvido na edição do periódico O tempo que, junto com outros anuários, como O contemporâneo e Palavra russa, publicava artigos de autores niilistas e de seus críticos. Em resumo, se Turguêniev populariza o termo niilismo na literatura russa, seria Dostoiévski que levaria às últimas consequências o filão aberto por aquele. O meu interesse é tanto compreender os elementos genéticos que possibilitaram a discussão do niilismo na Rússia naquele momento, quanto avaliar as consequências das posições políticas e metafísicas dos personagens, visto que estes exemplificariam teorias possíveis sobre a negação.  

hp – O que caracteriza o niilismo russo e quais são as diferenças entre o niilismo político e o metafísico? Como Dostoiévski e Turguêniev abordam esse tema em suas obras literárias e quais são as consequências de levar o niilismo às últimas consequências? 

Roberto Wu – O niilismo metafísico é um termo que cunhei para discutir variações niilistas que não se enquadravam na perspectiva política. É preciso salientar que o niilismo surge na Rússia como confronto de uma geração radical, denominada de raznotchíntsy, a um estilo arcaico de organização sociopolítica, a qual sofreria inflexões ocasionadas por mudanças paradigmáticas, a partir de teorias que se opunham ao status quo político e intelectual. Dentre estas, destacam-se certas versões de utilitarismo e positivismo, com forte apelo ateísta.  

Se Turguêniev e Dostoiévski discutem autores representativos dessa geração de niilistas ou, quando não personalizados, pelo menos as atitudes características dela, obviamente ambos partem do niilismo político, que busca corroer e destruir as estruturas arcaicas da sociedade russa. Porém, mesmo em Pais e filhos, Turguêniev não se limita a discutir o niilismo no âmbito sociopolítico, mas investiga a ideia de uma negação total – embora não se especifique exatamente do que se trata. Em Dostoiévski, o niilismo é explorado inicialmente em uma versão majoritariamente utilitarista e positivista em Memórias do subsolo, ironizando propositadamente a primeira geração de niilistas (N. G. Tchernichévski e N. A. Dobroliúbov). Em obras posteriores, esse viés permanece, embora de um modo mais secundário e muitas vezes episódico, na medida em que dá lugar ao que eu nomeio como “experimento de negação”.  

Em Crime e castigo, por exemplo, trata-se menos de negar a ordem jurídica, do que negar a condição em que o indivíduo se encontra por meio de um experimento histórico – é o que Raskólnikov se propõe a fazer, ao propor que todo criador é um destruidor, mas frequentemente também um assassino. Essa negação não tem um propósito diretamente político; antes, seria mais bem qualificado como niilismo metafísico, pois se refere a um tipo de experimento que estabelece o lugar do indivíduo na história. Aquele que é bem sucedido nesse tipo de negação – aí nomeado de extraordinário – é o indivíduo para quem “tudo é permitido” e que pode cometer toda a sorte de crimes. Porém, ressalto que o niilismo metafísico não é homogêneo.  

O resultado da sedução pela negação total é que o niilista metafísico acaba por se afastar de elementos básicos que sustentam a vida, o que a torna insuportável

Em O idiota, por exemplo, o personagem Hyppolit personifica uma negação que se permite a tudo, ao menos hipoteticamente, e que é motivado pela sua doença terminal. Em Os demônios, Kiríllov desdobra esta sugestão de Hyppolit e procura tornar-se o homem-Deus através do suicídio. Mesmo o núcleo niilista central de Os demônios, composto por Stravróguin e P. Stiepánovitch, dificilmente poderia ser enquadrado no niilismo político. Em relação ao primeiro, trata-se de uma vontade orgulhosa e negadora, e, por este motivo, indiferente a tudo. Em relação a P. Stiepánovitch, apesar de seu envolvimento na articulação prática e organização da célula revolucionária, ele o faz sem um telos político, mas em vista do alastramento da destruição em si.  

Consequências do niilismo  

Em Os irmãos Karamazóv, o personagem Ivan Karamázov apresenta em outro contexto alguns dos traços niilistas anteriormente explorados – hipertrofia da consciência, excesso de teorização, o sufocamento de certa sensibilidade solidária pela racionalidade, a monomania em torno das implicações da não-existência de Deus. Por fim, em relação ao niilismo político, entendo que Dostoiévski entende como consequência, a instauração de um estado de coisas anárquico, aos moldes do que é descrito em Os demônios, a partir da perda de laços fundamentais de solidariedade, que se perdem na negação generalizada. Quanto ao niilismo metafísico, penso que é ilustrativo que, por excesso de teorização, personagens mais reflexivamente metafísicos pensam em suicídio (Hyppolit), se suicidam (Kiríllov), ou enlouquecem (Ivan Karamázov). O resultado da sedução pela negação total é que o niilista metafísico acaba por se afastar de elementos básicos que sustentam a vida, o que a torna insuportável.  

hp – Que leitura faz do modo como Turguêniev apresenta o tema do niilismo em Pais e Filhos, e de como ele trabalha, de um lado, o niilismo, o materialismo e o cientificismo representado em Bazárov e, de outro, uma visão não-niilista e que representa o romantismo e a tradição, na figura de Pável Petróvitch, mas também nos próprios pais de Bazárov? 

Roberto Wu – A forma como entendo a obra Pais e Filhos, mas também o debate que se segue à sua publicação, é de que o niilismo surge como contraponto à antiga geração (Pável Petróvitch), romântica e afeita aos costumes de vida da aristocracia liberal. Contudo, se o niilismo surge para negar o romântico, o inverso não se segue – o romântico pode se situar no outro extremo em relação ao niilista, mas não o nega (ativamente), ao passo que o niilista nega aquele. Bazárov representa, de certa maneira, uma insatisfação presente no tempo em que Turguêniev escreve, o que significa que o niilismo, o materialismo e o cientificismo não são meras criações literárias, mas a base teórica do seu tempo. No entanto, o romântico, a meu ver, traz também um caráter incidental ao ser a figura eleita para ser representada por Turguêniev.

Bazárov representa, de certa maneira, uma insatisfação presente no tempo em que Turguêniev escreve, o que significa que o niilismo, o materialismo e o cientificismo não são meras criações literárias, mas a base teórica do seu tempo

Não há dúvidas de que a geração niilista dos anos 1860 tem em vista a geração anterior de 1840, formada pelos preceitos românticos (Schiller, Herzen etc.), mas, por outro lado, o que Pais e filhos parece indicar, é que não importa qual seja a geração anterior, ela figurará inevitavelmente romântica para a nova geração, devendo, portanto, ser negada. Por fim, cabe destacar que, para além desses elementos, o niilismo russo assumiria um teor essencialmente político, o que de certa maneira já aparece em Pais e filhos, que lida com a primeira geração de niilistas (Tchernichévski e Dobroliúbov), mas que ainda seria radicalizado posteriormente – vide o retrato do niilismo político em Os demônios do Dostoiévski. 

hp – Que relações existem entre o tema do niilismo e o da revolução? 

Roberto Wu – Uma forma de entender o niilismo, em sua acepção russa, é pensá-lo a partir da ideia de negação. No entanto, e essa é a riqueza das obras de Turguêniev e Dostoiévski, negar pode ter diversas manifestações e consequências distintas. A obra Os demônios, por exemplo, é baseada na figura de S. G. Nietcháiev, que lidera a organização política clandestina Justiça Sumária do Povo, e cujos traços de personalidade serviram de inspiração para a criação do personagem P. V. Stiepánovitch. Enquanto Stiepánovitch é o mentor político que arregimenta novos membros para as células revolucionárias, N. V. Stavróguin é a figura inspiradora de toda a organização política, mas nenhum dos dois é, propriamente, um revolucionário, embora sejam encarnações de formas niilistas.  

Por outro lado, o niilismo político expresso por personagens secundários, como, Lipútin, Liámchin, Virguinski e Chigalióv, cujo espírito é imediatamente canalizado para a ideia de revolução, é a forma mais obtusa, por assim dizer, de negação. Além disso, há ainda em Os demônios, o niilismo metafísico de Kiríllov, que se volta contra o todo da criação e, no limite, contra a sua própria existência. Apesar do termo niilismo, na época de Dostoiévski, estar associado à política e ao agir revolucionário, entendo que o primeiro não se limita a este e, por este motivo, suscita questões de outra ordem. 

hp – No artigo O crime metafísico em Dostoiéviski, o senhor apresenta a crítica do escritor russo à tese de que o crime pode ser explicado primordialmente a partir da determinação social dos indivíduos. Em oposição ao determinismo social, Dostoiévski analisa o crime a partir das noções de culpa e pecado. O que essa abordagem de Dostoiévski nos indica sobre seu entendimento acerca da natureza humana e de que forma ela pode ser útil como contraponto às teses contemporâneas que advogam pela determinação social? 

Roberto Wu – Para Dostoiévski, é insuficiente a análise do crime do ponto de vista da determinação social, a qual, em última instância, é uma ilusão, conforme ele já deixara claro, de forma irônica, em Memórias do subsolo. Ele desloca a análise do crime para o tema do pecador – termo utilizado espontaneamente por outros personagens para referir a si mesmos, como Sônia e Svidrigáilov, mas evitado por Raskólnikov. Isso é significativo na medida em que o seu crime não visa apenas e primordialmente a violação da lei terrena, mas denota o orgulho da transgressão da lei divina, encarnando em um só golpe, Napoleão e Mefistófeles. Em certo sentido, se a negação pode se aplicar a tudo, então já não há mais o que não possa ser transgredido.

Dostoiévski inverte a leitura tradicional de crime, a saber, como derivada de determinações sociais, para discutir a tese de que se grandes indivíduos se colocam em condição de moldar a sociedade, isso é em si um crime

Em meu artigo Crime metafísico em Dostoiévski (Aletria, v. 20, n. 3, 2010, p. 257-266) sugeri que Dostoiévski inverte a leitura tradicional de crime, a saber, como derivada de determinações sociais, para discutir a tese de que se grandes indivíduos se colocam em condição de moldar a sociedade, isso é em si um crime, pois rompe com as normas anteriormente vigentes.  

hp – No artigo Dostoiéviski e Godard sobre a estética da revolução, o senhor apresenta e compara o modo como o escritor e o cineasta trataram do tema do niilismo e da revolução em períodos distintos: o primeiro em 1860, na Rússia Czarista, e o segundo, um século depois, na França, em 1960. Filosoficamente, como esses dois momentos históricos se aproximam e se diferenciam e que contribuições a arte de Dostoiévski e de Godard trazem para pensá-los? 

Roberto Wu – São dois momentos de transição e que deixariam marcas indeléveis para a posteridade. A Rússia Czarista estava sendo contestada em relação a pautas mais progressistas, e as novas gerações radicalizariam sua insatisfação, culminando no assassinato do czar Alexandre II em 1881, cerca de um mês após Dostoiévski falecer. Maio de 1968 representa a possibilidade de uma contestação do status quo e que seria retomado em várias oportunidades por todo o globo, mas também o esgotamento de certa forma de práxis política, como sugere, de maneira interessantíssima, o filme No intenso agora (2017), de João Moreira Salles. O modo de elaborar os seus momentos históricos, por Dostoiévski e Godard, é, não obstante, diametralmente oposto. A obra Os demônios, que surge com uma motivação panfletária de ataque aos niilistas, torna-se, em sua composição, um retrato complexo dos niilistas, na medida em que explora e desenvolve seus traços de forma profunda e radical.

Se Godard mostra o caráter de pasteurização que ocorre em todo movimento revolucionário, Dostoiévski fornece os meios para se entender os mecanismos pelos quais os indivíduos passam a ser cooptados e mantidos em relação de dependência por grupos políticos de tal natureza

Contrariamente, A chinesa é supostamente um filme político, sendo que o próprio Godard chegou a reivindicar certa paternidade de sua obra em relação a maio de 1968. Entretanto, o filme não apresenta de fato nenhum tipo niilista; antes, os personagens são caricaturais, as teses defendidas pelos revolucionários resumem-se a citações e frases de efeito, impossíveis de serem levadas a sério. Se Godard mostra o caráter de pasteurização que ocorre em todo movimento revolucionário, Dostoiévski fornece os meios para se entender os mecanismos pelos quais os indivíduos passam a ser cooptados e mantidos em relação de dependência por grupos políticos de tal natureza, assim como ajuda a compreender o papel desempenhado por indivíduos absolutamente distintos em uma configuração política. 

hp – Filosoficamente, como podemos ler as obras de Dostoiévski? Quais problemas filosóficos perpassam a obra do escritor russo, além do tema do niilismo? 

Roberto Wu – Durante toda a sua vida, Dostoiévski se interessou pela filosofia, tendo a estudado seriamente, e participou de debates em diversos círculos em que a fundamentação filosófica era inevitável. Nem sempre a riqueza dessa ambiência filosófica aparece de forma detalhada em seus escritos, mas ela permanece sempre como base para a sua criação. O espectro de problemas filosóficos vai desde questões mais abstratas, como sobre em que consiste o mal, a contradição entre liberdade e determinismo, a oposição razão e sentimento, a estética, a relação entre indivíduo e história, até assuntos mais concretos e característicos da filosofia política, como os temas da igualdade e da representação, através do debate sobre a emancipação das mulheres e dos mujiques. 

Eu gostaria de sugerir ao menos três maneiras de abordar filosoficamente Dostoiévski:  

a) pela correlação entre a sua obra e filósofos clássicos como Kant, Nietzsche e autores associados ao existencialismo, como, por exemplo, Sartre, Camus, Heidegger, Kierkegaard (cf. Walter Kaufmann, Existencialism: from Dostoevsky to Sartre ou o livro de Evgenia Cherkasova, Dostoevsky and Kant: Dialogue on Ethics);  

b) pela retomada e atualização da discussão entre Dostoiévski e as correntes filosóficas sustentadas pelos seus contemporâneos, como, por exemplo, o utilitarismo, o egoísmo racional, o positivismo, o idealismo, o materialismo, o socialismo utópico;  

c) ler a sua obra como apontando para possibilidades que devem ser discutidas filosoficamente. Particularmente, eu tenho trabalhado nessa última perspectiva, embora, no mais das vezes, as abordagens (a) e (b) acabam sendo inevitáveis para a sua realização, ou, ao menos, a enriquecem consideravelmente. 

Nem sempre a riqueza dessa ambiência filosófica aparece de forma detalhada em seus escritos, mas ela permanece sempre como base para a sua criação

hp – Poderia citar e comentar brevemente três livros de filosofia que considera fundamentais para estudantes e interessados? 

Roberto Wu – Mencionarei três livros que estão ligados à minha pesquisa, sem pretender que são mais importantes que tantos outros.  

A retórica 

Gostaria de começar com A retórica, de Aristóteles. Tenho consciência que muitos indicariam a Metafísica, que estabelece o léxico de toda a discussão ontológica posterior, com termos como essência, substância, ato, potência, ou a Ética Nicomaqueia, que estabelece as bases da ética da virtude. Sei também que A retórica encontraria sistematizações ainda mais abrangentes e com sentidos diversos daquela encontrada na obra aristotélica, como na Institutio Oratoriade Quintiliano, mas a menciono por se tratar de um texto em que falar e agir no mundo estão conectados, ou antes, o falar (assim como todas as outras expressões capazes de adquirir sentido) é ele mesmo um agir. Os efeitos da significação no mundo são um pressuposto constante de minha pesquisa filosófica. 

Ser e Tempo 

Após todos esses anos de estudo, a obra Ser e Tempo, de M. Heidegger continua sendo um texto que tem algo a dizer. Trata-se um livro que estabeleceria as sendas para tendências filosóficas que se seguiriam: a centralidade da linguagem nas relações de mundo, o papel incontornável da historicidade na interpretação e, portanto, a impossibilidade de interpretação sem pressupostos, a recusa de qualquer base antropocêntrica, a recolocação do ser como questão originária da filosofia e, com isso, a possibilitação de pensar para além de esquemas conceituais rigidamente cristalizados na tradição filosófica metafísica, a importância filosófica da cotidianidade, o caráter fundamental de afinações de mundo como medo e angústia, a primordialidade de um espaço de sentido anterior às concepções vulgares de teoria e prática, entre outros. 

Obras escolhidas I – Magia e técnica, arte e política 

Por fim, menciono a compilação de textos de Walter Benjamin, publicada como Obras escolhidas I – Magia e técnica, arte e política. Em praticamente todos os capítulos aí reunidos, temos a prefiguração de discussões filosóficas e de temáticas que são pesquisados atualmente. Para mencionar apenas alguns, Benjamin antecipa a discussão entre a técnica e a arte, a relação entre ambas com a política e com o perigo do fascismo, o impacto das transformações midiáticas na percepção humana, a pobreza de experiência no contemporâneo, a narração como forma de resistência à perda de experiência, o tema do estado de exceção e a concepção da história como catástrofe. 

hp – Entre os livros e artigos da sua produção acadêmica, quais sugere aos leitores como os mais representativos do seu percurso intelectual e por quais razões? 

Roberto Wu – Em primeiro lugar, indico o texto que escrevi durante o meu período de pós-doutorado no Boston College, intitulado “The Recurrence of Acoustics in Levinas”. Trata-se de uma discussão sobre a terminologia acústica empregada por Levinas, com uma abordagem original, e que foi publicada na renomada Levinas Studies (10, 2016, p. 115-136). O texto é parte de um projeto mais amplo para pensar termos como estes no seio da fenomenologia e da retórica. 

Também de caráter original é o meu artigo “The University as Locus of Visibility: a  Phenomenological Approach”, publicada no anuário The Yearbook on History and Interpretation of Phenomenology 2017  – Epimeleia Tēs Psychēs: The Idea of the University and the Phenomenology of Education, Ed. Jana Trajtelová (Berlim: Peter Lang, 2018, p. 59-79). Diferentemente do texto sobre Levinas, em que a originalidade está na interpretação da obra levinasiana sobre um fundo investigativo mais amplo, neste, a própria ideia do artigo é inédita, na medida em que procuro mostrar o esgotamento de alguns dos termos e abordagens mais importantes sobre a ideia de universidade, e sugiro um viés fenomenológico de análise, como capaz de desenvolver o aspecto da visibilidade da universidade.  

O artigo “Creative imagination, Openness, and Music” apareceu no anuário Analecta Husserliana [A.-T. Tymieniecka, P. Trutty-Coohill (eds.), The Cosmos and the Creative Imagination, v. 119, 2016, p. 31-39], que já publicou textos de filósofos como Hans-Georg Gadamer e Roman Ingarden. O texto explora a conexão entre criatividade, materialidade e música, ao propor a centralidade de conceitos hermenêuticos, como historicidade da compreensão e abertura, na apreensão do fenômeno da música, tanto do ponto de vista da composição, quanto da execução. 

Meus interesses sobre retórica aparecem no capítulo The Rhetorical Aspect of Translation [in J. Stanley, B. O’Keeffe, R. Stolze, L. Cercel (eds.), Philosophy and Practice in Translational Hermeneutics. Bucharest: Zeta Books, 2018, p. 119-142], em que discuto a importância de conceitos basilares da retórica na discussão sobre a tradução, como, por exemplo, na análise das implicações de se compreender o tradutor como orador, no emprego do conceito de vivacidade e, por fim, na proximidade entre a performance do orador com as proposições de H.-G. Gadamer e W. Benjamin sobre a linguagem. 

Os dois filósofos com quem dialoguei mais detidamente em minha produção intelectual foram M. Heidegger e H.-G. Gadamer. Sobre Heidegger, penso que o artigo “Transcendência originária e possibilitação: sobre o problema da intencionalidade na ontologia fundamental” (O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 27, n. 43, p. 361-381, jul.-dez. 2018) traz uma contribuição inédita e importante sobre o assunto, ao expor a inadequação do uso do termo intencionalidade para se referir à obra heideggeriana, sendo muito mais próprio o emprego de transcendência para o tipo específico de fenomenologia que Heidegger desenvolve particularmente no período da ontologia fundamental. Dentre os vários textos escritos sobre Gadamer, destaco o capítulo “O abismo sob a ponte: os limites da controvérsia entre Gadamer e Habermas (in: Feldhaus, C.;  Dutra, D. J .V.; Habermas e interlocuções. São Paulo: DWW, 2012, p. 223-243), que apresenta os motivos pelos quais as interpretações de Habermas sobre a hermenêutica gadameriana são geralmente imprecisas. 

Por fim, menciono o grupo de textos dedicado a Dostoiévski como parte expressiva de minha produção. O artigo “Política e niilismo na obra de Dostoiévski” (Raízes Jurídicas, Curitiba, v. 4, n. 1, jan./jun. 2008, p. 331-351) é, possivelmente, o mais conhecido, embora tenha um caráter mais introdutório. Diferentemente, o texto “Dostoiévski e Godard: sobre a estética da revolução” (Revista Literatura em Debate, v. 4, n. 6, jan.-jul., 2010, p. 223-239) já traz uma análise mais pormenorizada sobre as diversas facetas do niilismo na obra Os demônios

hp – Além da sua produção, que outros artigos ou livros de colegas indica aos leitores? 

Roberto Wu – Claudia Drucker. A Palavra Nova: O Dialogo Entre Nelson Rodrigues e Dostoievski. Brasília: Ed. UnB, 2010.  

Para aqueles que se interessaram pelos temas dostoievskianos discutidos na presente entrevista, sugiro a leitura desse livro, que aborda diversos tópicos da obra de Dostoiévski em paralelo com os escritos de Nelson Rodrigues. A autora enfatiza certo pensamento produzido na “periferia do progresso”, simultaneamente na Rússia e no Brasil. 

Róbson Ramos dos Reis, Aspectos da Modalidade: a noção de possibilidade na fenomenologia hermenêutica. Rio de Janeiro, Via Verita, 2014.  

Trata-se de uma pesquisa exaustiva sobre o conceito de possibilidade existencial na obra de Heidegger, a partir de uma interpretação modal da experiência, de modo tal que esse termo distingue-se daqueles conceitos operativos nas modalidades lógicas e metafísicas tradicionais. Consiste, dessa forma, em uma investigação aprofundada sobre os desdobramentos da tese heideggeriana, presente em Ser e tempo, a respeito do primado da possibilidade sobre o efetivo. 

Jeanne Marie Gagnebin. História e narração em W. Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 1999.  

Desde sua publicação, esse livro é, na minha avaliação, a melhor apresentação da obra de W. Benjamin, seja por introduzir ao leitor, de maneira exitosa, à importância dos temas da história e da narração, quanto pela escrita elegante de sua autora. 

Gustavo Silvano Batista, Hermenêutica e Práxis em Gadamer. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018. 

Esse livro é uma ótima apresentação aos leitores brasileiros do tema da práxis em Gadamer. O caráter prático da hermenêutica gadameriana nem sempre é fácil de apreender, especialmente se este é tomado dentro de certas categorias da filosofia política e da ética. O autor desenvolve a tese de que o pensamento de Gadamer deve ser lida a partir da fusão entre filosofia hermenêutica e práxis, propondo que filosofia hermenêutica só seria bem compreendida se remetida ao espaço comum, ao mesmo tempo em que se reconhecesse o aspecto hermenêutico de toda práxis. 

A filosofia implica em embates, sejam eles de ideias no âmbito estritamente acadêmico, de pesquisa e produção intelectual, seja do ponto de vista de seu lugar político

hp – Que conselho daria para os estudantes de filosofia? 

Roberto Wu – A filosofia implica em embates, sejam eles de ideias no âmbito estritamente acadêmico, de pesquisa e produção intelectual, seja do ponto de vista de seu lugar político, como espécie de saber alicerçado no espírito crítico e que, por este motivo, de tempos em tempos encontra-se ameaçada, já que o pressuposto imanente de seu exercício, qual seja, o de uma honestidade intelectual, exige que ela não deva se curvar a interesses de qualquer tipo. Penso que, assim como é preciso uma sensibilidade para escutar a voz da tradição, é igualmente recomendável aos estudantes aceitar o conflito e o dissenso inerente à sustentação de sua posição filosófica, sem descurar da atividade prática. Ao final, se estou correto, todas essas atitudes acabam por contribuir umas às outras.  

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