O estudo da filosofia exige “paciência”, “disciplina” e “eros”. Essas são as três qualidades que a professora Rachel Gazolla aconselha os estudantes a perseguirem.

Nesta entrevista, concedida por e-mail para o homo philosophicus, ela fala sobre três das suas paixões: pré-socráticos, Platão e estoicos. A leitura dos primeiros, diz, é fundamental “porque afirmam sobre o Todo o que não negaríamos hoje” e “porque pensam o pensamento humano dentro do cosmos onde estamos”. Platão “é infindável e atualíssimo”, enquanto o estoicismo “é uma reflexão holística muito forte na antiguidade”.

Rachel Gazolla é editora da Revista Hypnos, de filosofia antiga, professora da Faculdade de São Bento, São Paulo, professora convidada da PUC Valparaiso, no Chile e é ex-professora titular da PUC-SP. 

A seguir, a entrevista.

homo philosophicus – Professora Rachel, o que é filosofia?
Rachel Gazolla –
É um estudo em que você desfruta da busca do saber sobre os fundamentos do que é da própria razão.

Profa. Dra. Rachel Gazolla

homo philosophicus – A senhora é formada em ciências jurídicas e em filosofia na Universidade de São Paulo – USP, e na pós-graduação concentrou seus estudos em filosofia antiga. Pode nos contar sua trajetória, como surgiu seu interesse por filosofia e por que decidiu-se, por fim, pela filosofia antiga?
Rachel Gazolla –
Após terminar o curso de direito, havia a questão da Ética e dos porquês. Achei que só a filosofia poderia aproximar-se disso.

homo philosophicus – Durante o mestrado, parte da sua pesquisa teve o auxílio do professor Jean-Pierre Vernant, um dos maiores especialistas em Grécia Antiga no século XX. Como foi sua relação de estudo e pesquisa com ele naquele período?
Rachel Gazolla
– Fui ao professor Vernant por absoluta necessidade de enxergar a Grécia Antiga fora dos padrões acadêmicos de então. Ele me ajudou com suas obras e aulas, sua generosidade ao indicar outros estudiosos e também com sua visão nomeada “psicologia histórica”. Seu grupo não trabalhava muito com filosofia, propriamente, mas abria tal possibilidade, e eu a apanhei.

homo philosophicus – Sua dissertação de mestrado foi sobre “O ofício do filósofo – Um estudo sobre o Estoicismo” e sua tese de doutorado, sobre “Platão, o filósofo da medida – um estudo sobre a alma nos diálogos de maturidade”. Como foi seu percurso de pesquisa que iniciou no estudo do estoicismo e depois voltou a Platão? Há preocupações comuns nos dois temas estudados?
Rachel Gazolla –
Quanto à cronologia, tanto faz por onde você comece, porque a dificuldade ao estudar a filosofia greco-romana do ângulo que escolhi não permite desconhecer a cultura toda da época (na medida do possível). Confesso que quis desistir dos estoicos, lidar com fragmentos… mas já era tarde para desistir! Ainda bem que continuei, pois eles são incríveis! Quanto a Platão, eu precisava de mais maturidade para lê-lo… e ainda preciso.

homo philosophicus – Como vê a atualidade da sua tese de doutorado hoje, quase 30 anos depois?
Rachel Gazolla –
Platão é infindável e atualíssimo. Quanto mais você lê, mais aprende sobre tudo. Continuo com minha tese defendida, porém desenvolvi muito com os anos e a atualidade de Platão me parece cada vez maior.

Você pode forçar quebra de temas hoje para investigar, mas vai encontrar tudo junto e sem gavetas nos textos antigos

homo philosophicus – Entre seus temas de pesquisa ao longo da sua trajetória acadêmica, destacam-se a história da filosofia antiga, os pré-socráticos, Platão, filósofos helenísticos, as tragédias e a alma. Como essas temáticas se interrelacionam na sua visão de filosofia antiga?
Rachel Gazolla –
Hoje pensamos por gavetas: psicologia é uma, história é outra, medicina, física etc. Não é assim na filosofia antiga. Você pode forçar quebra de temas hoje para investigar, mas vai encontrar tudo junto e sem gavetas nos textos antigos. Claro que é um desafio enorme para nós considerarmos, por exemplo, um comediante como Aristófanes ser estudado no curso de filosofia, ou um trágico como Sófocles!!

homo philosophicus – A sua percepção sobre filosofia, sobre os problemas e as respostas filosóficas foram se transformando ao longo do seu percurso como pesquisadora e professora? Em que sentido?
Rachel Gazolla –
Essencialmente, não mudaram minhas ideias, mas se aprofundaram, expandiram-se, relacionaram-se com novas ideias e outros campos do saber (antropologia, psicologia, física).  Olhando o percurso, eu tinha só migalhas, mas não as joguei fora… e fui juntando. 

homo philosophicus – Como é a rotina de um filósofo? Pode nos contar como é a sua rotina profissional?
Rachel Gazolla –
Agora estou mais lenta no trabalho de ler, pensar, escrever, ensinar. Não sou filósofa. Quem é hoje? Sou intérprete de filósofos, um ofício solitário e, ao mesmo tempo, muito social quando se ensina. 

homo philosophicus – Quais são as principais dificuldades de estudar filosofia antiga?
Rachel Gazolla –
Muitas! Há um certo “desprezo” geral porque a antiguidade é “passado”, e até explicar que não é bem assim, que desânimo! Politicamente, foi um problema minha escolha depois da repressão de 68. As universidades foram quase destruídas e a censura acabava deixando de lado os textos antigos e medievais de filosofia. Na América do Sul, a filosofia antiga e medieval estavam bem nas ditaduras de então. Pode-se deduzir o resto.

homo philosophicus – Que orientações ou dicas de estudo daria para estudantes que gostariam de se dedicar ao estudo da filosofia antiga? Por quais problemas eles poderiam começar?
Rachel Gazolla –
Bom, têm que ler em outras línguas e aprender grego antigo. Comecem com história, literatura e os primeiros filósofos. Depois de certo trato com outros textos de filósofos e intérpretes, volta-se aos primeiros filósofos (!).

homo philosophicus – A senhora coordenou a coleção da Editora Paulus “Philosophica”. Como foi o seu trabalho à frente dessa coleção e como avalia o mercado editorial brasileiro e internacional de filosofia antiga?
Rachel Gazolla –
Gostei de fazer esse trabalho, mas a Paulus parou a coleção por questões financeiras. Filosofia vende pouco, mas sabíamos que seria uma coleção para bibliotecas e estudiosos específicos. O que vende bem deve passar pela mídia e não é o caso de filosofia antiga. Mas o que foi publicado, publicado está!

Filosofia vende pouco. O que vende bem deve passar pela mídia e não é o caso de filosofia antiga

homo philosophicus – Como o estudo da filosofia influencia a sua vida e como sua vida influencia seus estudos?
Rachel Gazolla –
Difícil pergunta. Há algo no meu modo de ser que se encaixa com os estudos filosóficos, e estes exigem esse algo que tenho. Mais do que isso, é biografia!

homo philosophicus – A senhora tem algum método de estudo?
Rachel Gazolla –
Deveria ter, de início, mas sou um tanto rebelde e
a tenacidade necessária vem só no fim de uma investigação. Vou
recolhendo, grifando, pensado, volto, esqueço, volto outra vez…
vou cozinhando. Na hora certa, a comida fica pronta, tudo fica mais ou menos ordenado. Não aconselho esse “método”. 

homo philosophicus – Enquanto membro da International Plato Society – IPS e membro-fundadora da Asociación Latinoamericana de Filosofía Antigua – Alfa, como avalia o estado atual da produção de pesquisa em filosofia antiga no Brasil, na América Latina e no mundo?
Rachel Gazolla –
Deuses! Nada bem, não é? A filosofia luta para existir! A face humanista de um país precisa dela, mas como o Humanismo está ficando fora de moda, a filosofia (e bem mais a antiga) vai se misturando nas prateleiras com o esoterismo. No Brasil, estamos vendo a rapidez com que as Humanidades estão indo para a lata do lixo. Logo a filosofia antiga será lida como o são os poetas: por um público cativo.

No Brasil, estamos vendo a rapidez com que as Humanidades estão indo para a lata do lixo

homo philosophicus – Durante uma parte da história da filosofia de viés analítico, a história da filosofia foi considerada uma disciplina não filosófica, de interesse estritamente histórico. Como responderia a esse tipo de posicionamento?
Rachel Gazolla –
Faz parte de nossa época uma visão mais “científica” dos textos. De um lado, isso é bom, porque há o cuidado com a boa leitura e a estrutura lógica do texto. De outro lado, perde-se o vitalismo da escrita do filósofo, as entrelinhas, as influências ocultas que, numa abordagem mais aberta, pode apresentar sentidos inusitados. Platão, por exemplo, dificilmente aceita uma leitura só analítica. E a história da filosofia como disciplina pode assumir dois ângulos. O contrário não é possível.

homo philosophicus – Filosoficamente, por que é importante estudar filosofia antiga nos dias de hoje?
Rachel Gazolla –
Porque ela ensina a pensar o ontem e o hoje e o hoje com mais sagacidade… e quanto ao presente… ora, qualquer filosofia é presente. 

homo philosophicus – O que distingue o pensar mítico do pensar filosófico? O que os seus estudos sobre a Grécia Antiga lhe ensinaram acerca dessas duas formas de pensamento?
Rachel Gazolla –
O pensamento mítico dominou e domina a maior parte da chamada História do homem. Mesmo que não saibamos, temos um pensar mítico arraigado em nós: nossas crenças, o modo mágico de ajuizar… Já o filosófico, se eu considerar como o campo dos argumentos e juízos, aprendemos com ele a ler o mundo de outro modo, porém o usamos muito mal, argumentamos mal, ajuizamos pior. Isso, claro, no dia a dia.

homo philosophicus – A senhora declarou numa entrevista ao programa “Quem somos nós?” que a cultura grega não é filosófica, mas mítica no sentido positivo. Pode explicar essa ideia? Qual é a importância de valorizarmos o pensamento mítico apesar do advento da filosofia e da ciência?
Rachel Gazolla –
Quis dizer que os gregos e romanos antigos não eram filósofos, só alguns poucos. Ademais, nossa cultura atual desvalorizou o mito em nome de uma leitura restrita de si própria. Se você acredita em progresso, é evidente que o mito lhe parece ingênuo. Eu não acredito nesse tipo de progresso, de modo que o pensar mítico e o filosófico não deveriam ser excludentes. Ganharíamos muito com isso.

Nossa cultura atual desvalorizou o mito em nome de uma leitura restrita de si própria. Se você acredita em progresso, é evidente que o mito lhe parece ingênuo. Eu não acredito nesse tipo de progresso

homo philosophicus – Dos filósofos pré-socráticos só restaram alguns fragmentos. Como e por que ler os pré-socráticos?
Rachel Gazolla –
Porque são os primeiros para o Ocidente; porque afirmam sobre o Todo o que não negaríamos hoje; porque pensam o pensamento humano dentro do cosmos onde estamos e do qual dependemos.  

homo philosophicus – Uma parte significativa das suas pesquisas nos últimos anos é sobre diálogos de Platão. Filosoficamente, por que ler os diálogos de Platão?
Rachel Gazolla –
Platão não é para todos, devo dizer sem qualquer arrogância. Todas as potencialidades que temos no pensar, agir, fazer, foram refletidas por ele. Acho que basta falar assim.

homo philosophicus – O tema da alma em Platão é bastante recorrente em seus artigos. O que é a alma em Platão e por que seu interesse nessa temática em particular?
Rachel Gazolla –
A alma e a morte são os temas que mais de perto nos perturbam. O que é a alma? Pensamos a alma enquanto tal? Ou múltipla? A busca da definição do que seja a alma é angustiante e foi o que procurei sempre. Em Platão, acho que estou quase chegando lá. 

A alma e a morte são os temas que mais de perto nos perturbam. A busca da definição do que seja a alma é angustiante e foi o que procurei sempre

homo philosophicus – O que a concepção política de Platão tem a nos dizer para questões políticas de hoje?
Rachel Gazolla –
Essa resposta é um livro, Patrícia!!

homo philosophicus – No senso comum, mas também no interior da filosofia, é comum ouvirmos professores e pesquisadores afirmando que Platão postulou o mundo das ideias, que é separado do mundo sensível.  Na entrevista que concedeu ao “Quem somos nós?”, a senhora comentou brevemente que essa interpretação é equivocada. Pode explicar o que é a teoria das ideias e qual é a origem dessa interpretação?
Rachel Gazolla –
Esse é outro livro! Existe separação, sim, mas não de “mundos” como normalmente se pensa: são modos de pensar o ser (formais, matemáticos, sensíveis). Fixou-se a desvalorização dos sensíveis enquanto ao fundamento do conhecimento verdadeiro. No entanto, não é bem assim se pensarmos que transitamos entre todos os seres e seus modos. O que seria do campo ético sem os sensíveis? É um assunto longo e complexo. 

homo philosophicus – Como a teoria das ideias ecoa ao longo da história da filosofia?
Rachel Gazolla –
Um eco infindável com vários tons. O mais presente é o tom da modernidade: a Razão tem ideias, conceitos… mas, é difícil explicar que essa Razão não está em Platão e as ideias são existências em si. Desenvolver esse tema exige muito do investigador.

homo philosophicus – A alegoria da caverna exposta no livro VII da República é outra das referências famosas de Platão e ela é usada para interpretações que vão desde a política à cultura pop. Qual é a chave de leitura para esta passagem?
Rachel Gazolla –
A chave? Terá uma? Pode-se dizer que não se compreende essa alegoria sem uma outra alegoria imediatamente anterior, do final do livro VI, a da Linha. De qualquer modo, a da Caverna é muito útil didaticamente e ficou mais conhecida por isso. Ao mesmo tempo, ela aponta para o Conhecimento e para a Ética que Platão vem anunciando desde o livro VI (para não dizer que é na República inteira), e que tratará melhor no livro VII quando da educação do filósofo. Não é pouco…

homo philosophicus – Outra parte das suas pesquisas é sobre as tragédias gregas. Filosoficamente, o que lhe atrai nas tragédias? Rachel Gazolla – Tenho para mim que nelas já se anuncia uma reflexão profunda sobre o que é o homem e seus limites diante do outro, de suas paixões e juízos para agir, de seu pouco conhecimento diante do que o transcende. 

Nas tragédias já se anuncia uma reflexão profunda sobre o que é o homem e seus limites diante do outro, de suas paixões e juízos para agir, de seu pouco conhecimento diante do que o transcende

homo philosophicus – A senhora publicou o livro “Para não ler ingenuamente uma tragédia grega”. Professora Rachel, como não ler ingenuamente uma tragédia?
Rachel Gazolla –
Lendo meu livro (kkk). Uma tragédia grega é expressão peculiar da Grécia do século V e, ao mesmo tempo, seu cerne é universal. Tem-se que levar em conta esses dois ângulos. Trata do humano propriamente humano e tem aspectos religiosos que não ressoam em nós hoje.

homo philosophicus – Entre os livros e artigos da sua produção acadêmica, quais indicaria como os mais representativos do seu percurso intelectual e por quais razões?
Rachel Gazolla –
Talvez os que me deram mais trabalho! Platão dá muito trabalho, principalmente quando o estudo envolve os diálogos mais tardios como Timeu, Filebo e, meu estudo atual, o Epinomis que não está terminado. Mas o artigo sobre a alma que escrevi sobre Heráclito é, para a minha surpresa, muito lido (sobre o fragmento 45), e sobre os estoicos, o livro está esgotado (O ofício do filósofo estoico).

homo philosophicus – Poderia citar e comentar brevemente três livros de filosofia que considera fundamentais?
Rachel Gazolla –
Para filosofia antiga, o diálogo República, de Platão. A Ética toda de Aristóteles. Mais contemporâneo, toda a Escola de Frankfurt. Leituras de Camus. E com o mestre acompanhando: Nietzsche.

homo philosophicus – Além da sua produção, que outros artigos
ou livros de colegas indica aos estudantes de filosofia e interessados e por quais razões?
Rachel Gazolla –
Traduzidos para o português, gosto do Francis Wolff, apesar de ele ter um divertido traço sofístico oculto, e, talvez, por isso mesmo, ele tenha uma reflexão muito móvel e bem articulada. Em filosofia antiga, o Brasil produz pouco. Mas não podemos esquecer do seu conterrâneo, Miguel Spinelli, e seu volumoso trabalho sobre a filosofia helenística. Maura Iglésias tem o mérito de estar traduzindo os diálogos de Platão para a editora Loyola, aos poucos. Nossa exigência é que as traduções sejam publicadas também em grego, ou não compramos! Quanto aos autores estrangeiros, há muitos. Os italianos têm produzido muito em filosofia antiga. Os franceses estão sempre editando algo em filosofia antiga. Os ingleses, nem se fala! São linhas diferenciadas de leitura diante de um texto antigo… aí, vai do gosto do leitor.

Sigo Merleau-Ponty: a filosofia está em toda parte e em nenhuma. Não morre, mas está em crise

homo philosophicus – Que destino vislumbra para a filosofia nos dias de hoje, em que é crescente o avanço das ciências e da técnica?
Rachel Gazolla –
Nesse ponto, sigo Merleau-Ponty: a filosofia está em toda parte e em nenhuma. Não morre, mas está em crise.

homo philosophicus – Que conselho pode dar para os estudantes de
filosofia?
Rachel Gazolla –
Paciência, disciplina, Eros.

6 comentarios en “Rachel Gazolla: “A face humanista de um país precisa da filosofia”

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