Num mundo marcado por transformações decorrentes do progresso científico-tecnológico, aqueles que tiverem “formação ou atitude filosófica contribuirão para que a ascensão da máquina nos contemple com ócio fecundo ao invés de escravidão alienante”. Para pensar este futuro, “combinar a filosofia com outras áreas é muito fecundo e recompensador”, sugere o professor aos estudantes de filosofia. 

Nesta entrevista, concedida por e-mail ao homo philosophicus, Osvaldo Pessoa Jr. conta como suas pesquisas nas áreas de filosofia e física influenciam sua abordagem de alguns problemas filosóficos, como o surgimento da vida, da consciência, da liberdade e da morte. Crente em que uma revolução kuhniana nas ciências do “mentencéfalo” ainda está por vir, ele aposta num futuro em que alterações cerebrais ou genéticas vão eliminar o medo da morte.

Osvaldo Pessoa Jr. é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP.

A seguir, a entrevista.

homo philosophicus – Professor Osvaldo, o que é filosofia?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Para mim, filosofia é pensar sobre questões gerais da vida e do mundo, de maneira conceitual, em oposição ao raciocínio que segue técnicas ou corpos teóricos, como ocorre nas ciências e nas atividades práticas. Sendo assim, todos filosofam, em maior ou menor grau, em especial na infância. Diferente de um poeta, o filósofo (ou a filósofa) preocupa-se mais com o rigor do raciocínio, contemplando diferentes concepções ou perspectivas a respeito de um tema. Essa é uma definição de filosofia lato sensu, que inclui naturalmente o pensamento de outras culturas, definição esta que é mais ampla do que aquela adotada pelos filósofos que dialogam apenas com a tradição grega. 

Prof. Dr. Osvaldo Pessoa Jr.

hp – Como descreveria seus interesses intelectuais em filosofia para pessoas leigas ou estudantes? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Tenho interesse na Filosofia da Natureza, ou seja, em como a natureza física é constituída, e como é possível entender o surgimento da vida e da consciência (mente) em um mundo físico. Em especial, estudei conceitualmente a física quântica, que trata do mundo nanoscópico dos átomos e moléculas. Explorei também a relação que há entre as escalas físicas, como o “nano” e o “macro”, e o sentido em que se pode falar em “redução” do macro para o nano, ou não. 

Tenho também interesse em como a ciência progride, e nessa direção desenvolvi modelos causais para a história da ciência (envolvendo representação em computadores), a partir dos quais se pode especular sobre como a ciência poderia ter sido, em um cenário contrafactual. Ultimamente, tenho me debruçado mais sobre como a consciência “primária” (vivência subjetiva de sensações, emoções, memórias e sonhos) é produzida no corpo dos animais.

Tenho interesse na Filosofia da Natureza, ou seja, em como a natureza física é constituída, e como é possível entender o surgimento da vida e da consciência (mente) em um mundo físico

hp – O senhor tem algum método de estudo para estudar física, filosofia da física e filosofia da ciência? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Eu tendo a trabalhar com muitos assuntos ao mesmo tempo, e às vezes leva muito tempo para um assunto gerar uma publicação. Não gosto de assumir posições pré-determinadas sobre um assunto, mas sim tentar gerar alguma interação com a realidade para obter elementos para formular uma resposta à questão. Esta interação pode se dar através de leituras, de maneira empírica (por exemplo, entrevistando cientistas ou lendo sobre a história de uma área), rodando simulações computacionais (tenho uma longa história de fracassos nesta área, mas continuo em frente), ou explorando experimentos mentais.

Estou me referindo aqui à produção de artigos, mas há um outro tipo de produção que são os livros didáticos, resultantes de notas de aula. Só publiquei um livro deste tipo, Conceitos de física quântica (2003-6), mas estou finalizando um sobre Filosofia da física clássica, trabalhando em um sobre Filosofia das ciências do mentencéfalo, além das notas mais superficiais de Filosofia da ciência em uma abordagem histórica, entre outras tentativas (estão todos disponíveis online). Neste caso, é preciso encontrar um caminho didático que gere interesse nos alunos, e saber resumir áreas de estudo (não centrais para o curso ministrado) de maneira simplificada, com indicações bibliográficas para o aluno que queira perseguir um tema. A interação com os alunos é fundamental para o aprimoramento desses livros.  

hp – Como é a sua rotina de trabalho? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Boa parte do meu tempo de trabalho é dedicada a preparar aulas, encontrar com alunos, fazer pareceres e participar de bancas. Além disso, procuro reservar um tempo contínuo (por exemplo, uma semana sem interrupções) para escrever artigos. Às vezes uma ideia aparece e então sento para não deixá-la escapar. Aos 60 anos, a memória já não é tão boa, mas a criatividade continua em alta, então é necessário colocar as ideias e as leituras logo no papel, senão elas se esvaem. 

Conferências são um estímulo à preparação de artigos, além de serem uma ocasião para encontrar amigos, aprender sobre outros assuntos e ter ideias. Uma apresentação oral em uma conferência nos força a enfocar uma questão e respondê-la: depois o preenchimento dos detalhes resulta no artigo. Mas às vezes o artigo é escrito antes da apresentação oral, principalmente se têm muitos detalhes de história ou de leituras de outros autores.

O trabalho acadêmico em minha área dá uma certa liberdade na escolha dos horários, mas é preciso ser responsável para cumprir todas as tarefas, sendo que muitas delas não geram reconhecimento (como dar pareceres), apesar de serem importantes para o bom funcionamento da área de conhecimento em que se trabalha.

hp – O senhor estudou física e filosofia na Universidade de São Paulo – USP e depois fez mestrado em física e doutorado em história e filosofia da ciência. Como foi esse percurso que iniciou na física e chegou à filosofia e, mais especificamente, à filosofia da ciência? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Bem, meus pais eram cientistas, então isso serviu como atração para a área da ciência, ao mesmo tempo que eu não queria repetir a carreira deles, então acabei me direcionando para a filosofia da ciência. No final dos anos 1970, era possível matricular-se em dois cursos ao mesmo tempo na USP, então desde cedo me interessei em juntar física e filosofia. A filosofia da ciência tradicional, examinando temas epistemológicos gerais, nunca me interessou muito. Já a “ontologia” do mundo me fascinava, então segui uma tendência dos anos 1980, de aprofundar filosoficamente em uma área específica da ciência, no caso a física quântica, no doutorado. 

A “ontologia” do mundo me fascinava, então segui uma tendência dos anos 1980, de aprofundar filosoficamente em uma área específica da ciência, no caso a física quântica

hp – Que problemas filosóficos estão presentes na física, de maneira geral? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Um dos maiores problemas é o da não-localidade, que se evidenciou na física quântica, de maneira mais marcante, a partir dos trabalhos de John Bell, na década de 1960, e que talvez esteja confinada apenas a escalas atômicas. Outro grande problema é o da origem da (talvez aparente) irreversibilidade do mundo macroscópico, problema clássico que se manifesta na física quântica também no chamado “problema da medição”. 

Outro grande problema é o da origem do tempo, e a natureza do espaço-tempo na teoria da relatividade. O problema que vem me interessando ultimamente é o do lugar das “qualidades” na descrição de mundo físico (qualidades estas que conhecemos pela vivência subjetiva da nossa consciência). A descrição usual da natureza, feita pela ciência teórica, tende a ser “mecanicista” (ou seja, considera apenas a descrição matemática e linguística), sem lugar para qualidades.

hp – O senhor concluiu o doutorado em 1990, na Indiana University, nos EUA, com a tese intitulada “Measurement in Quantum Mechanics: Experimental and Formal Approaches”. Como avalia sua pesquisa hoje, 30 anos depois, em perspectiva com o que tem estudado em física quântica desde então?   

Osvaldo Pessoa Jr. – O trabalho de doutorado permitiu que eu entendesse a discussão contemporânea sobre o problema da medição. Explorei algo de novo relacionado às “medições generalizadas”, conhecidas pela sigla “POVM”. De volta ao Brasil, examinei a interpretação da complementaridade de Niels Bohr, o que me permitiu mais tarde oferecer uma solução para o “problema de Afshar”.

Estudei também o problema da decoerência, tendo me beneficiado da interação com o físico Carlos Escobar. Ministrei a disciplina de Fundamentos Conceituais da Mecânica Quântica desde 1992, na área de Ensino do Instituto de Física da USP. Disso resultou o livro Conceitos de Física Quântica. Em 1994, ministrei um dos primeiros seminários sobre Computação Quântica no Brasil, mas quando a área decolou, alguns anos depois, eu já estava defasado da pesquisa em Fundamentos da Mecânica Quântica, que requer estudo intenso. Prossegui estudando aspectos menos exigentes da Filosofia da Física Quântica, como a classificação de suas interpretações e a questão do misticismo quântico. Escrevi 64 textos de divulgação, que estão disponíveis na minha página pessoal.

hp – Por que considera a física quântica uma área “interessante” para o estudo filosófico? 

Osvaldo Pessoa Jr. – A Física Quântica explora um domínio da realidade com o qual não tivemos contato ao longo da evolução biológica, de maneira que ela acaba sendo bastante contraintuitiva. Passamos a ter acesso a um domínio da realidade onde as coisas não se comportam da maneira com a qual estamos acostumados. Pelo fato de este domínio estar no limite de nosso conhecimento, resulta que há diferentes maneiras de interpretar os dados experimentais (ou seja, há uma subdeterminação das interpretações pelos dados), então o debate acaba sendo “filosófico”, ou seja, baseado em argumentos e outras considerações que vão para além dos meros fatos empíricos. Outra área muito rica em interpretações e filosofia é a Teoria da Relatividade Restrita.   

hp – Como entende a demarcação entre filosofia e ciência?   

Osvaldo Pessoa Jr. – Bem, eu acho que existe uma demarcação entre ciência e não-ciência, mesmo que ela não seja sempre bem definida. Um ponto interessante é caracterizar a chamada “pseudociência” ou o “pseudoconhecimento”, como a astrologia ou a teoria homeopática, e distingui-la das teorias científicas aceitas pela ciência ortodoxa. Sobre a filosofia, partes dela estão presentes na atividade científica, mas é possível fazer uma demarcação entre uma atividade filosófica com muito pouco conteúdo empírico (pode-se argumentar que há algum conteúdo empírico mínimo em teorias metafísicas, por exemplo, uma teoria sobre os universais deve ser fiel à nossa experiência com os objetos do mundo) e uma atividade científica em que o conteúdo empírico tem papel primordial. 

O cientista pode minimizar ao máximo o papel da especulação filosófica, como fazem os positivistas, ou pode aceitar sua presença na ciência teórica, como fazem os realistas

O cientista pode minimizar ao máximo o papel da especulação filosófica, como fazem os positivistas, ou pode aceitar sua presença na ciência teórica, como fazem os realistas. Sobre a teoria das cordas, da física teórica, ela não faz nenhuma previsão nova que possa ser observada, mas o fato de ela unificar duas teorias (o modelo padrão de partículas elementares e a Teoria da Relatividade Geral) lhe dá conteúdo empírico e a faz claramente científica, mesmo que termine não podendo ser testada (neste caso, não saberemos se ela é verdadeira ou não). Já especulações sobre universos paralelos me parecem mais próximas de filosofia pura, mas elas surgem da investigação científica, então podem ser consideradas científicas. A questão de se uma tese é científica é diferente da questão de se uma tese é verdadeira. Para explorar este ponto, a discussão sobre pseudociência é bastante rica. 

hp – Um debate sobre realismo e antirrealismo em filosofia da ciência lida com os inobserváveis. Qual sua posição sobre o realismo científico? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Eu tendo a ser realista. No caso específico da Teoria Quântica, parece-me muito claro que há uma ontologia relativa ao mundo “subnanoscópico” (abaixo da escala de nanômetro, ou 10–9 m, que é o tamanho de uma molécula de glicose). A versão mais instrumentalista ou antirrealista da teoria só atribui realidade para as marcas deixadas em detectores, marcas essas que são sempre bem localizadas (pontuais). Mas o formalismo trabalha com uma “função de onda”, que dá conta dos padrões de difração segundo os quais as marcas pontuais de elétrons (por exemplo) são detectadas. É natural inferir que a realidade de átomos e moléculas tenha uma ontologia ondulatória. 

Quanto à natureza pontual da detecção, ela é resultado da interação do elétron com a placa detectora (ou outro detector envolvendo um número imenso de férmions), em estado metaestável. Esse processo de “colapso” é interpretado de diferentes maneiras pelas diferentes interpretações, mas é razoável supor que alguma dessas interpretações esteja mais próxima da verdade. Como não temos (ainda) como resolver a questão, o realista tem que aceitar a subdeterminação da teoria pelos dados experimentais: não há como saber (pelo menos por enquanto) qual é a natureza da realidade subnanoscópica.

hp – Ao longo da sua produção acadêmica, destacam-se pesquisas sobre mente, cérebro, consciência e filosofia da neurociência. Como suas convicções em filosofia da física impactam ou determinam suas demais posições em filosofia da mente e em outros problemas filosóficos? 

Osvaldo Pessoa Jr. – A influência é muito grande. Tendo a ser um “fisicista” com relação aos processos mentais, no sentido de que considero que um ponto vermelho em meu campo visual subjetivo está localizado dentro do crânio, sendo assim idêntico a propriedades ou processos que estão ocorrendo nesta região do encéfalo. Tendo a associar as qualidades subjetivas sensoriais (qualia) a processos químicos ocorrendo em escala celular, ou nos neurônios, ou nas sinapses, ou nos astrócitos, ou em todos (dependendo de qual é a escala essencial para os processos mentais). 

Nesta versão de fisicismo, aceito que há uma “lacuna explicativa” entre uma descrição mecanicista dos processos encefálicos (a descrição teórica desses processos) e as qualidades que vivenciamos subjetivamente: em poucas palavras, a partir de quantidades não se chega a qualidades. As leis de ponte entre as duas serão estabelecidas empiricamente, formando “princípios” não explicados. Afora esta concepção, que chamo de fisicismo qualitativo, ou tese do encéfalo colorido, vejo que minha formação em filosofia da física molda minha visão do problema da liberdade da vontade (livre-arbítrio). Tendo a ser fisicista também com relação a este tema, concebendo nossas ações como derivadas de processos físico-químicos. 

Minha formação em filosofia da física molda minha visão do problema da liberdade da vontade (livre-arbítrio). Tendo a ser fisicista também com relação a este tema, concebendo nossas ações como derivadas de processos físico-químicos

Creio que somos “autônomos” no mesmo sentido em que uma câmara de representantes decide autonomamente sobre uma questão. Na câmara, cada congressista escolhe seu voto de alguma maneira – seguindo a opinião de seus eleitores, jogando uma moeda, recebendo um suborno etc. – e há um processo de contagem dos votos. Analogamente, em um indivíduo em condições normais, há muitas causas influenciando suas ações – memórias, desejos, efeitos de propaganda ou de ideologia, e mesmo processos aleatórios – e algum processo deliberativo (ainda desconhecido) gera a ação final do indivíduo. Somos autônomos no sentido de que esse processo ocorre mais imediatamente em nosso corpo. Esta seria a análise com relação à liberdade da vontade (como nossas vontades surgem); com relação à liberdade de ação, aí sigo a visão usual da filosofia política. 

hp – Por que o estudo sobre o cérebro se tornou algo tão central na filosofia nas últimas décadas? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Segundo a visão científica do mundo, a mente é produto direto do encéfalo (em inglês, brain, que, tecnicamente, engloba o cérebro propriamente dito, o diencéfalo, o cerebelo e o tronco encefálico), sendo que o resto do corpo e também o ambiente desempenham um importante papel causal. Há um debate sobre a importância do corpo e do ambiente na cognição, em que se destacam as correntes “4E” (embodied, embedded, enactive, extended) que tendem a diminuir a importância relativa do encéfalo. De qualquer maneira, a visão materialista de que a mente é produto do corpo e do encéfalo se fortaleceu bastante no século XX. Para a filosofia que dialoga com a neurociência e com a psiquiatria, os resultados científicos fornecem material de reflexão, convidando cada corrente filosófica a tentar explicar comportamentos humanos diferentes e experimentos inovadores.

Segundo a visão científica do mundo, a mente é produto direto do encéfalo, sendo que o resto do corpo e também o ambiente desempenham um importante papel causal

Eu já mencionei alguns desses experimentos. Os experimentos de Benjamin Libet, indicando que as escolhas conscientes humanas são precedidas no tempo por uma escolha inconsciente e mensurável com aparelhos de eletroencefalograma, são um exemplo de como a neurociência tem estimulado o debate filosófico. As situações em que humanos têm seu corpo caloso cortado, gerando um “cérebro bipartido”, levantam questões interessantes sobre a individualidade humana, ao sugerirem que uma pessoa possa ter dois “eus”, cada qual associado a um córtex cerebral. E assim por diante.

hp – Como o senhor reage, de outro lado, à tese filosófica de que o ser humano não é idêntico ou não pode ser reduzido ao seu cérebro?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Nesta pergunta, talvez fosse melhor perguntar se a “mente” se reduz ao corpo, pois claramente um “ser humano” ou uma “pessoa” é mais do que seu encéfalo. Sobre a tese mais específica de que a mente não se reduz ao corpo ou ao encéfalo, esta tese sempre foi e ainda é bastante forte. Eu diria que 90% dos filósofos que trabalham na área a defendem, e também uma boa parte dos neurocientistas. O que aconteceu na Filosofia (especialmente de língua inglesa), a partir dos anos 1970, foi que a assimilação do materialismo foi compensada por um fortalecimento do antirreducionismo, ou da noção de “emergência”.

Minha opinião pessoal tende a ser reducionista: defendo que as qualidades subjetivas são idênticas a qualidades fisicoquímicas. No entanto, a compreensão de como essas qualidades surgem a partir da materialidade organizada envolve uma “lacuna explicativa”

Segundo o materialismo, a mente é produzida pelo corpo, e na morte do corpo, a mente desaparece. Na Filosofia da Mente, o que o emergentismo defende é que a mente é “produzida” pelo corpo, mas não “se reduz” ao corpo. Há vários argumentos nessa direção. Minha opinião pessoal tende a ser reducionista: defendo que as qualidades subjetivas são idênticas a qualidades fisicoquímicas. No entanto, a compreensão de como essas qualidades surgem a partir da materialidade organizada envolve uma “lacuna explicativa” (como eu já mencionei), a ser coberta por um conjunto de princípios não explicados. Uma questão central é sobre a escala em que as qualidades surgiriam: seria na escala celular ou molecular? Para esta questão, creio que alguma noção relacionada à de “emergência” desempenhará um papel importante.

hp – Que contribuições a neurociência tem dado para a resolução ou atualização de problemas filosóficos?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Da maneira como encaro a filosofia, em um sentido “lato”, considero que o diálogo com a neurociência é extremamente benéfico para ambos os lados. Há um grande número de estudos científicos que são interessantes para a filosofia da mente, como o cérebro bipartido (Sperry), o compartilhamento de partes do encéfalo em gêmeos craniópagos, a pré-datação temporal (Libet), o monitoramento de tomadas de decisão (Libet também), a troca de nervos óptico e auditivo, a localização de “células da vovó” (que respondem quase exclusivamente a um único conceito), estudos sobre sonhos, emoções, memória, linguagem, “estados alterados”, esquizofrenia, além dos inúmeros casos de alterações neurológicas que levam a mudanças subjetivas e de comportamento, como as patologias do self (eu). Teorias filosóficas, como a da natureza da identidade pessoal, precisam dar conta também das situações não usuais descritas pela neurociência. 

hp – O senhor continua acreditando que uma grande revolução na neurociência e na filosofia da mente ainda está por vir? Por que aposta nesta via? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Sim, com certeza. Nem todos pensam como eu, argumentando que a revolução da neurociência já começou, assim como há revoluções em outras áreas da microbiologia. Aí depende da definição de “revolução” que se utiliza. Penso no sentido usado por Thomas Kuhn, de uma grande revolução conceitual que estabelece um paradigma ou visão de mundo nova, a nortear quase toda a atividade da área. Uma revolução kuhniana se completou com a Física Newtoniana, com a química de Lavoisier a Mendeleev, com a Física Quântico-Relativística, com a nova síntese biológica e com a tectônica de placas na Geociência. 

A nova revolução da ciência do “mentencéfalo” estabeleceria qual é a natureza da consciência humana, esclareceria a natureza das doenças mentais, classificaria os diferentes graus de consciência, determinaria sua localização no encéfalo (ou sua não-localização) e sua extensão no reino animal

Há revoluções em níveis um pouco inferiores; por exemplo, na Física Clássica houve o Eletromagnetismo e a Termodinâmica. Uma análise do que aconteceu na ciência biológica a partir dos anos 1960, em termos de uma revolução kuhniana, também merece análise. Mas no caso da neurociência e sua integração com a psicologia e a filosofia da mente, essa nova revolução da ciência do “mentencéfalo” (mindbrain science) estabeleceria qual é a natureza da consciência humana, esclareceria a natureza das doenças mentais, classificaria os diferentes graus de consciência, determinaria sua localização no encéfalo (ou sua não-localização) e sua extensão no reino animal, e preconizaria os níveis de consciência passíveis de serem atingidas no futuro, por animais modificados ou por máquinas equipadas com os ingredientes necessários para a consciência. 

Creio que o momento chave será a evidência experimental a respeito da localização da consciência primária, exemplificada pela cena visual que vivenciamos agora. Se se descobrir que há um “sensório” bem localizado, ou correlato imediato da consciência, boa parte dos pesquisadores passarão a explorar esta região, desvendando sua natureza neural e bioquímica. Se a evidência empírica apontar que não há um correlato bem localizado, a pesquisa será direcionada para explicar como isso é possível. Em todo caso, minha aposta é que a consciência não é mero fruto da complexa organização dos neurônios (funcionalismo), mas que depende crucialmente da natureza material das partes relevantes (naturalismo biológico, ou “psicossubstancialismo”). Ou seja, provavelmente um androide ou ginoide feitos de microchips de silício organizados detalhadamente como o sistema nervoso humano não teriam consciência, pois careceriam da necessária materialidade química que nos permite vivenciar uma cena colorida, por exemplo. A tese de que as cores subjetivas são reflexo da química celular foi sugerida por Ewald Hering. 

hp – A neurociência poderá mudar nossa concepção da natureza humana? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Além das considerações que fiz acima, creio que a nossa concepção sobre o que somos se alterará profundamente. Acho que as pessoas tenderão a perder o medo da morte, pelo menos em um nível racional. O medo da morte é uma reação emocional forte que existe em nós porque, na evolução biológica passada, nos auxiliou muito na sobrevivência. No futuro provavelmente saberemos como eliminar este medo “patológico” da morte, através de alterações cerebrais ou genéticas, mas vale refletir se tal alteração é desejável, mesmo que racionalmente passemos a considerar que não há motivos para temer a nossa própria morte. Alterações em nossa concepção de quem somos provavelmente alteraria também os rumos da tecnologia, por exemplo, ao perdermos o desejo de prolongar a vida indefinidamente.

No futuro provavelmente saberemos como eliminar este medo “patológico” da morte, através de alterações cerebrais ou genéticas, mas vale refletir se tal alteração é desejável

hp – O que o senhor pensa sobre a posição que afirma que as ciências naturais esgotariam o nosso conhecimento da realidade? 

Osvaldo Pessoa Jr. – O conhecimento científico, tanto nas ciências naturais quanto humanas, assim como o conhecimento técnico, são uma extensão do conhecimento cotidiano. Esse grande corpo de conhecimento seria a totalidade de nosso conhecimento. O que ficaria de fora, na minha opinião, é o chamado “conhecimento religioso”: a não ser que Deus realmente exista, não se pode chamar uma doutrina religiosa de conhecimento.  

Não vejo também a arte como “conhecimento”, pois ela é uma expressão técnica feita pelos seres humanos, não a representação de uma realidade. No entanto, está claro que há conhecimento envolvido no aprendizado das técnicas artísticas, e que conhecimento pode ser expresso por meio de uma pintura, que representa uma cena. Acho também que a arte pode ser usada para exprimir um conhecimento a respeito da subjetividade do artista, como um estado emotivo. 

A não ser que Deus realmente exista, não se pode chamar uma doutrina religiosa de conhecimento

hp – Em que consiste sua pesquisa sobre modelos causais em história da ciência? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Trata-se de uma abordagem que descreve a história da ciência traçando relações causais entre seus “avanços”. Avanços são unidades de conhecimento, podendo ser uma ideia, um instrumento, dados, uma pergunta, uma explicação, uma derivação teórica, um experimento, enfim, qualquer coisa que um cientista possa passar para outros cientistas. Por exemplo, as bactérias foram descobertas porque havia microscópios acromáticos, então esta é uma das causas da descoberta das bactérias. As conexões causais podem ser complicadas, e a partir delas é possível vislumbrar caminhos históricos que de fato não aconteceram: estes seriam as histórias “contrafactuais”. Se Tycho Brahe tivesse morrido em seu duelo de juventude, a órbita elíptica de Marte teria sido descoberta com dados obtidos de telescópios (em uma grandíssima porcentagem de mundos possíveis ramificados a partir do duelo mortal). Armazenando a informação dos modelos causais em computadores, já conseguimos simular histórias contrafactuais bastante simples. Nosso objetivo agora é melhorar e enriquecer esta abordagem.

hp – Entre os filósofos da filosofia da ciência, quais, na sua avaliação, trouxeram contribuições significativas para essa área? Pode dar alguns exemplos e comentá-los? 

Osvaldo Pessoa Jr. – A pesquisa em história da filosofia tende a se aglutinar em torno dos grandes nomes.  Mas as ideias fecundas para nossa pesquisa pessoal se espalham por um campo muito mais extenso de autores. Recentemente, respondi algumas perguntas sobre filosofia da ciência para o periódico Em Construção, e fiz uma lista dos filósofos e cientistas que me influenciaram.

Mas a pergunta agora é sobre os filósofos da ciência mais influentes. No século XIX, podemos mencionar, em língua inglesa, John Herschel, John Stuart Mill, William Whewell e Charles Peirce; na França, Auguste Comte, Claude Bernard e Pierre Duhem; e em língua alemã, Ernst Mach e Ludwig Boltzmann.

No início do século XX, Henri Poincaré, Norman Campbell, Moritz Schlick, Rudolf Carnap, Hans Reichenbach, Albert Einstein, Karl Popper, Ludwik Fleck, Gaston Bachelard e Bertrand Russell. Após a 2ª Guerra Mundial, Stephen Toulmin, Georges Canguilhem, Norwood Hanson, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend, Imre Lakatos, Carl Hempel, Wesley Salmon, Ernest Nagel, Mary Hesse.

No final do século, Bas van Fraassen, Larry Laudan, Ian Hacking, Nancy Cartwright, Bruno Latour e o argentino Mario Bunge. Cada área de filosofia da ciência específica tem também seus nomes mais influentes. Na filosofia da física, posso mencionar Adolf Grünbaum, Abner Shimony, Lawrence Sklar, John Earman, Max Jammer, Michael Redhead, e nosso colega Harvey Brown, entre muitos outros. Os doze livros de filosofia da ciência geral mais influentes do século XX, em ordem cronológica, poderiam ser: 

(1) Poincaré, H. (1902). La science et l’hypothèse. Paris: Flammarion. Em português: 1974. Ciência e hipótese. Trad. Maria A. Kneipp. Brasília: Editora da UnB, 1974.

(2) Duhem, P. (1906). La théorie physique, son objet, sa structure. Paris: J. Vrin. Em português: A teoria física: seu objeto e sua estrutura. Trad. R. Soares da Costa. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2014.

(3) Popper, K. R. (1934). Logik der Forschung. Viena: Springer. Em português: A lógica da pesquisa científica. Trad. L. Hegenberg & O. Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1974.

(4) Nagel, E. (1961). The structure of science. New York: Harcourt, Brace & World.

(5) Hempel, Carl G. (1965). Aspects of scientific explanation. New York: Free Press.

(6) Kuhn, T. S. (1970). The structure of scientific revolutions. 2a ed. Chicago: University of Chicago Press. Em português: A estrutura das revoluções científicas. Trad. B.V. Boeira & N. Boeira. São Paulo: Perspectiva, 1978.

(7) Lakatos, I. & Musgrave, A. (orgs.) (1970). Criticism and the growth of knowledge. Cambridge: Cambridge University Press. Em português: 1979. A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. Trad. O.M. Cajado. São Paulo: Cultrix/EDUSP.

(8) Feyerabend, P. K. (1975). Against method. New York: New Left Books. Em português: Contra o método. Trad. O.S. da Mota & L. Hegenberg. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977. 

(9) van Fraassen, B. C. (1980). The scientific image. Oxford: Clarendon Press. Em português: A imagem científica. Trad. L. H. de A. Dutra. São Paulo: Discurso/UNESP, 2006. 

(10) Cartwright, Nancy (1983). How the laws of phsycis lie. Oxford U. Press.

(11) Hacking, I. (1983). Representing and intervening. Cambridge U. Press. Em português: Representar e intervir. Trad. P. Rocha de Oliveira. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2012.

(12) Latour, B. (1987). Science in action. Cambridge: Harvard University Press. Em português: Ciência em ação. Trad. I.C. Benedetti. São Paulo: UNESP, 2000.

hp – O senhor leciona em universidades desde meados da década de 1990. A partir da sua relação com os estudantes, qual diria que é o interesse deles por temas de filosofia da ciência e filosofia da física? Esse quadro tem se alterado ao longo das décadas? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Nas áreas em que eu trabalho, não acho que tenha havido uma mudança muito grande no interesse dos alunos, salvo um interesse maior na transformação tecnológica do mundo atual (associado à inteligência artificial, questões éticas do trans-humanismo, e à questão de máquinas conscientes). Por outro lado, na filosofia brasileira em geral, noto um aumento de interesse em filosofia política, que creio ser fruto da ministração de filosofia e sociologia no ensino médio. 

Na filosofia brasileira em geral, noto um aumento de interesse em filosofia política, que creio ser fruto da ministração de filosofia e sociologia no ensino médio

A filosofia da ciência atrai alunos que vêm da Filosofia, sem muita formação científica, ou da Ciência, com pouca formação filosófica. Os primeiros tendem a estudar autores ou questões clássicas, como o realismo. Os segundos se aprofundam mais em questões científicas, usando elementos das abordagens filosóficas. Quando os primeiros vêm estudar comigo, incentivo-os sempre a abordar um estudo de caso da ciência, para tornar a análise mais rica e detalhada. Talvez tenha havido um pequeno declínio de interesse em filosofia da ciência por parte dos alunos de Filosofia, mas é sempre possível atrair alunos das ciências para a área. Outra alteração digna de nota é o maior interesse em Filosofias Orientais, e em Filosofia Intercultural. 

hp – Existe um debate na filosofia acerca da relevância do estudo da história da filosofia para o próprio processo filosófico. Alguns consideram o estudo da história da filosofia fundamental, outros, nem tanto. Para o senhor, a história da filosofia tem importância? Qual é o peso da história da filosofia e da história da filosofia da ciência no desenvolvimento das suas pesquisas?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Eu dou muita importância para a história da filosofia e para a história da ciência. Mas gosto de desenvolver um olhar panorâmico, adentrando no trabalho de um pensador apenas quando há temas que interessam à minha pesquisa.

Na área de Filosofia, é importante haver especialistas em história da filosofia, mas no Brasil é importante incentivar também a filosofia mais aplicada

Valorizo a filosofia aplicada, como ocorre quando se adentra a uma questão científica em aberto, e que ocorre quando filósofos políticos exploram o mundo atual, filósofos da arte, a arte contemporânea, filósofos éticos, as questões éticas que se apresentam em nosso mundo em transformação, filósofos da ciência e tecnologia também, e quando filósofos da mente dialogam com a psicologia e a neurociência. Na área de Filosofia, é importante haver especialistas em história da filosofia, mas no Brasil é importante incentivar também a filosofia mais aplicada.

hp – Para estudar e pesquisar temas de filosofia da ciência, é preciso ter conhecimentos em ambas as áreas?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Bem, há filósofos com pouco conhecimento de ciência que produzem textos valiosos em filosofia da ciência geral, e cientistas sem muito conhecimento de filosofia que contribuem de maneira significativa para a área. Mas o ideal é um bom conhecimento de alguma área científica, de temas de filosofia (incluindo a lógica), e também de história da ciência. 

hp – Em 2004, seu livro “Conceitos de Física Quântica – Vol. I” ganhou o 46° Prêmio Jabuti na categoria ciências exatas e em 2011, seu livro “Teoria Quântica: Estudos Históricos e Implicações Culturais” ganhou o 53° Prêmio Jabuti na mesma categoria. Como foi o processo de produção dessas obras?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Conforme já mencionei, o Conceitos de física quântica foi o resultado das notas de aula de uma disciplina que eu havia ministrado uma meia dúzia de vezes. O prêmio foi dado principalmente porque o livro se mostrou acessível para um público não especializado em Física. Já o segundo prêmio foi mérito do grupo de pesquisa em Ensino, Filosofia e História da Ciência de universidades da Bahia e da Paraíba, centralizado pelo historiador Olival Freire Jr., que organizou um simpósio muito bom em Campina Grande, e requisitou os artigos dos autores, nacionais e estrangeiros. Eu e a historiadora Joan Bromberg, coeditores do livro, fizemos a revisão de parte dos textos e ajudamos a decidir algumas coisas, mas o mérito principal foi do Olival. 

hp – Entre os livros e artigos da sua produção, quais indicaria como os mais representativos do seu percurso intelectual e por quais razões?  

Osvaldo Pessoa Jr. – Em filosofia da física quântica, além do livro mencionado anteriormente, eu indicaria o artigo sobre decoerência que saiu na Synthese 113, 323-46, 1998, “Can the decoherence approach help to solve the measurement problem?”. Outro artigo que ficou muito bom, mas só saiu em português, foi o “Refinamentos da interpretação da complementaridade a partir do experimento de Afshar”, Scientiae Studia 11, 119-39, 2013.

Já uma proposta original para o teorema de Bell, mas de impacto nulo, apareceu em Manuscrito 33, 351-63, 2010: “Bell’s theorem and the counterfactual definition of locality”. Sobre modelos causais em história da ciência, um bom resumo está em: “Modeling the causal structure of the history of science”, in Magnani, Carnielli & Pizzi (orgs.) Model-based reasoning in science and technology, Springer, Berlin, pp. 643-54, 2010. A aplicação da computação para explorar histórias contrafactuais aparece em: “Computing possible worlds in the history of modern astronomy”, Principia 20, 117-26, 2016 (em coautoria com três alunos). O fisicismo qualitativo iniciou-se com a metateoria causal-pluralista da observação, que apareceu em inglês recentemente, em: “A causal-pluralist metatheory of observation”, Open Philosophy 2, 657-667, 2019. Resultados recentes do fisicismo qualitativo aparecem em “How to measure a quale”, Sofia (Vitória) 8, 187-98, 2019. Estes e outros trabalhos podem ser obtidos na minha página pessoal.

hp – Poderia citar e comentar brevemente alguns livros de filosofia que considera fundamentais? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Além da lista de livros mais influentes do século XX, mencionada acima, faço uma lista de uma dúzia de bons livros que gosto em Filosofia da Ciência e áreas correlatas, a partir do séc. XX, e que não são tão citados assim: 

(1) Schlick, M. (1918). Allgemeine Erkenntnislehre. Julius Springer, Berlin. Trad. para o inglês da 2a ed. revista de 1925: General theory of knowledge, trad. A.E. Blumberg, Springer, Viena, 1974.

(2) Feigl, H. (1967). The “mental” and the “physical”. Minneapolis: U. Minnessota Press.

(3) Piaget, J. (org.) (1969). Logique et connaissance scientifique. Paris: Gallimard. Em português: 1981. Lógica e conhecimento científico. 2 vols. 

(4) Merton, Robert K. (1973). The sociology of science. Chicago: University of Chicago Press. Em português: 2013. Ensaios de sociologia da ciência. Trad. S.G. Garcia & P.R. Mariconda. São Paulo: Ed. 34. 

(5) Jammer, M. (1974), The philosophy of quantum mechanics. New York: Wiley. 

(6) Salmon, Merrilee H. (1982). Philosophy and archaeology. New York: Elsevier.

(7) Franklin, A. (1986). The neglect of experiment. Cambridge U. Press.

(8) Earman, J. (1986). A primer on determinism. Dordrecht: Reidel.

(9) Donovan, A.; Laudan, L. & Laudan, R. (orgs.) (1988), Scrutinizing science: empirical studies of scientific change. Dordrecht: Kluwer.

(10) Hull, D. (1988), Science as process. Chicago: University of Chicago Press.

(11) Galison, P. (1997), Image and logic: a material culture of microphysics. Chicago: University of Chicago Press.

(12) Sarkar, S. (2007). Molecular models of life. Cambridge (MA): MIT Press.

hp – Que futuro vislumbra para a filosofia, considerando o avanço das ciências e da técnica? 

Osvaldo Pessoa Jr. – Eu estou do “outro lado” da cisão ocorrida no início do século XX entre filosofia e ciência. Sou psicologista e cientificista. Não tomo partido a priori no debate reducionismo versus emergentismo, pois acho que esta é uma questão “superempírica”, ou seja, depende de como é o nosso mundo (mesmo que talvez nunca possamos decidir objetivamente esta questão, da mesma maneira que no debate determinismo vs. tiquismo). Não acho que faça sentido postular um “livre arbítrio’, a não ser que haja uma alma (mente) que tenha alguma independência do corpo (e que, portanto, poderia sobreviver à morte). Quanto mais a ciência avançar, mais problemas filosóficos surgirão. 

Não acho que faça sentido postular um “livre arbítrio’, a não ser que haja uma alma (mente) que tenha alguma independência do corpo (e que, portanto, poderia sobreviver à morte)

Já a técnica envolve questões éticas, então julgo que o filósofo deva participar desses debates sobre quais tecnologias possíveis devam ser implementadas. Por sinal, separo fato e valor (na ciência), como faziam os positivistas, e creio que haja fatos objetivos (por exemplo, Andrômeda está fora de nossa galáxia). Estagnei na modernidade, não fiz a transição para a pós-modernidade. Entendo a objetividade como aquilo que não varia, em uma ciência saudável, de cultura para cultura, de história possível para história possível. Porém, ao contrário dos positivistas, sou realista, por exemplo, na Física Quântica, como mencionei antes, mas mesmo assim aceito que haja subdeterminação das interpretações pelos fatos. Já me defini como um popperiano indutivista. Enfim, uma concepção objetivista casa bem com uma atitude metateórica pluralista. Em outros termos, não sou relativista em filosofia da ciência, mas sou relativista na meta-filosofia da ciência, o que equivale a ser pluralista (o que dá espaço ao objetivismo). Por outro lado, um relativista em filosofia da ciência que rejeita o objetivismo acaba não estendendo o relativismo para a meta-filosofia da ciência. 

A técnica envolve questões éticas, então julgo que o filósofo deva participar desses debates sobre quais tecnologias possíveis devam ser implementadas

hp – Que conselho pode dar para os estudantes de filosofia? 

Osvaldo Pessoa Jr. – A atitude filosófica, que envolve uma atitude crítica ao que é lido, penetração de análise, imaginação, escrita clara ou rigorosa, e possibilidade de rever as próprias posições, é algo que tende a permanecer ao longo da vida. Isso pode ser levado a qualquer área para a qual o aluno ou a aluna venham a trabalhar (em face da limitação de vagas na profissão de professor ou acadêmico de filosofia). Combinar a filosofia com outras áreas é muito fecundo e recompensador: é a “filosofia aplicada”, que mencionei anteriormente. O mundo está em grande transformação, e os filósofos serão uma das últimas profissões a serem substituídas por máquinas. Uma revolução kuhniana nas ciências do “mentencéfalo” está por vir. Aqueles com formação ou atitude filosófica contribuirão para que a ascensão da máquina nos contemple com ócio fecundo ao em vez de escravidão alienante.

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