Estudar filosofia a ponto de tomar esta atividade como uma profissão pode se tornar uma tarefa penosa demais para quem não a compreende como uma vocação. “Só venha para a filosofia se isso for um chamado do âmago do seu ser. Se você ouvir esse chamado, não deixe de vir”, recomenda a professora aos estudantes. 

Nesta entrevista, concedida ao homo philosophicus por e-mail, Andrea Faggion conta como o seu objetivo de compreender a origem e a justificação dos deveres morais em um mundo secular guiou suas suas pesquisas filosóficas, que perpassam a filosofia kantiana, o libertarianismo de Robert Nozick e a defesa de um liberalismo moderado, como o sustentado pelo filósofo russo-britânico Isaiah Berlin. “Os libertários de direita costumam colocar um valor acima de todos os outros: a liberdade individual. Isso é questionável. Eu já me considerei capaz de responder essas questões, mas, hoje, penso que não haja boas respostas para ela”, afirma.

Andrea Faggion é professora do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina – UEL, no Paraná. Foi secretária geral da Sociedade Kant Brasileira de 2010 a 2018. Atualmente, é tesoureira da Sociedade Brasileira de Filosofia Analítica. É líder do Grupo de Pesquisa “Ética, Filosofia Jurídica e Filosofia Política”.

A seguir, a entrevista.

homo philosophicus – Professora Andrea, o que é filosofia? 

Andrea Faggion – Naturalmente, cada filósofo responderá a essa pergunta de maneira diferente, afinal, já se trata de uma questão filosófica. O fato de nós não divergirmos apenas sobre o conteúdo nas nossas respostas, mas também sobre os propósitos e os métodos adequados a esse tipo de busca por uma definição já lhe diz algo sobre a filosofia. Por exemplo, quando tentamos responder sua pergunta, será que queremos encontrar as condições individualmente necessárias e conjuntamente suficientes para a aplicação do conceito “filosofia”? Será que existe tal coisa como um mesmo conceito de filosofia perpassando todas as manifestações filosóficas ao longo da história como seu denominador comum? Em geral, o que é uma definição, para que servem definições e como podemos obter definições já são exemplos de problemas filosóficos.  

Profa. Dra. Andrea Faggion

Para mim, pessoalmente, o que é mais peculiar à filosofia é justamente essa tendência de não partirmos diretamente para a busca de respostas, mas começarmos a nos dobrar sobre as próprias questões, investigando seus pressupostos, suas implicações, suas razões de ser. Assim, eu diria que a filosofia é sempre um meta-discurso, isto é, um discurso de segunda ordem sobre nosso quadro conceitual, nosso aparato cognitivo. É nesse sentido que ela é pensamento crítico. A filosofia não é pensamento crítico, porque só filósofos estão habilitados a fazerem qualquer tipo de crítica ou porque se tornem mais propensos a isso. Crítica, no sentido em que uso o termo aqui, é esse modo de pensamento reflexivo ou de segunda ordem; um pensamento sempre regressivo, porque sempre dá um passo atrás em busca de uma questão ainda mais primordial. Assim, a filosofia, no meu entender, é mais uma busca de auto-conhecimento da humanidade nas suas próprias atividades do que um conhecimento direto sobre as coisas elas mesmas.  

O que é mais peculiar à filosofia é justamente essa tendência de não partirmos diretamente para a busca de respostas, mas começarmos a nos dobrar sobre as próprias questões, investigando seus pressupostos, suas implicações, suas razões de ser

hp – Como iniciou seu interesse por estudar filosofia?  

Andrea Faggion – Quando eu era adolescente, li Crime e Castigo, de Dostoiévski, uma obra que me impactou muito profundamente. No caso, eu queria entender a origem e a justificação de nossos deveres morais em um mundo secular. Pensando sozinha, eu cheguei a conclusões bastante niilistas e elas me angustiavam bastante. Eu ansiava por ter companhia para essas investigações, por ter a orientação de investigadores mais experientes. Essa necessidade me era tão urgente que procurei pelo curso de filosofia da minha cidade para me graduar sem fazer qualquer consideração de ordem pragmática. E, não, eu não sou de família rica, não tenho herança ou algo do tipo. Mesmo assim, era um chamado que eu não poderia deixar de atender em nome de necessidades práticas; um chamado que vinha de um lugar mais profundo do que o estômago.  

hp – Quais foram suas dificuldades neste percurso de estudo? 

Andrea Faggion – Decorre da minha resposta acima que as minhas principais dificuldades foram de ordem financeira. Eu tive que levar uma vida absolutamente franciscana durante todo meu período como estudante. A bolsa era uma preocupação constante. Eu tinha que ser sempre uma aluna muito bem avaliada para ter chances de bolsa, pois elas eram escassas também naquela época. Sou muito grata à minha mãe, por ter aceitado que, por tanto tempo, eu desse uma contribuição tão pequena em casa; e ao Prof. Joaquim José de Moraes Neto, que permitiu que eu ficasse com a bolsa de iniciação científica a que ele tinha direito, mesmo sem ter tanto interesse pelo meu projeto, apenas por reconhecer minha necessidade e meus esforços. Claro que também sou grata ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, que pagou a bolsa, sem a qual eu não poderia ter estudado. Sem o CNPq e demais agências de fomento à pesquisa como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e as agências estaduais, gente com a minha origem não faz pesquisa, quero deixar isso claro. E lembre-se que não é muito comum que gente de famílias mais ricas queira dedicar a vida à pesquisa acadêmica, seja em que área for, em vez de se ocupar em ganhar mais dinheiro para a família. 

hp – Como a senhora estuda filosofia? Tem algum método? 

Andrea Faggion – A minha pesquisa sempre começa do mesmo jeito que começou a minha graduação: com uma inquietação pessoal; tem que ter algo que eu ainda não entendo bem, mas pelo que sinto uma necessidade visceral de entendimento. A partir disso, recorto o meu tema e faço o levantamento bibliográfico. O problema mais preciso surge ao longo das leituras; vai ganhando forma conforme progrido nelas. Eu demoro muito em cada leitura, porque faço toneladas de anotações à mão.

A minha pesquisa sempre começa do mesmo jeito que começou a minha graduação: com uma inquietação pessoal

Acho inconcebível estudar filosofia passivamente, apenas lendo. Eu preciso criar constantemente enquanto leio, mesmo que, depois, eu nem olhe essas notas quando começo a produzir um texto para o público, e não mais apenas para mim. As notas servem para eu fazer o que o físico Feynman recomendava: explicar para aprender. Eu escrevo como se estivesse explicando algum trecho mais difícil que eu esteja lendo para meus alunos de graduação. Também escrevo as conexões que faço entre a leitura presente e o restante dos meus estudos. É assim que, geralmente, eu me aproprio profundamente do que li, a ponto de dar aulas inteiras sem olhar uma única anotação. 

hp – Sua formação acadêmica concentrou-se nas obras de Kant. Seu Trabalho de Conclusão de Curso na graduação foi sobre a justificação da moralidade na ‘Fundamentação da Metafísica dos Costumes’, sua dissertação de mestrado foi sobre o papel do facto da razão na Fundamentação da Moralidade em Kant. Ambos concentraram-se na razão prática. Já seu doutorado, de outro lado, foi sobre a razão pura. Pode nos contar como foi seu percurso de pesquisa, que iniciou investigando questões morais e depois foi para questões da crítica da razão pura em Kant? 

Andrea Faggion – Esse progresso é bem natural para quem estuda Kant, porque, no pensamento kantiano, é a teoria do conhecimento que abre espaço para a filosofia moral. Portanto, embora a filosofia moral seja mais importante para Kant, a teoria do conhecimento ou epistemologia, em certo sentido, é mais primordial. Esse percurso da filosofia moral para a teoria do conhecimento também se relaciona com o modo como eu disse entender a filosofia ao responder sua primeira pergunta. Como sempre nos voltamos para condições anteriores que expliquem uma possibilidade, uma compreensão mais completa e profunda do fenômeno moral para Kant exige esse passo atrás para a epistemologia, porque, enquanto a moral é o território da liberdade, é a epistemologia que explica como podemos falar em liberdade para seres naturais como somos nós, os humanos.  

Meu interesse por Kant não existe mais. Quando começamos nossos estudos, é inevitável que sejamos influenciados pelos interesses de nossos primeiros mestres, afinal, como saberíamos quais filósofos ler se não por intermédio deles? Assim, o fato de Kant ser muito estudado na universidade em que me graduei fez com que eu o herdasse de meus professores. Além disso, é claro, Kant vinha exatamente ao encontro do que eu procurava: uma teoria secular da moralidade.  

Kant vinha exatamente ao encontro do que eu procurava: uma teoria secular da moralidade

Hoje, eu considero a filosofia moral de Kant radicalmente equivocada, porém, não cuspo no prato em que comi. O fato de eu ter estudado Kant e, consequentemente, ter convivido por tanto tempo com os kantianos brasileiros foi absolutamente fundamental para minha formação. O Brasil tem uma comunidade de pesquisadores kantianos de extrema competência. Nessa comunidade, eu aprendi o que é rigor acadêmico. Essa herança, eu quero carregar para a vida toda. 

hp – Muitas das suas pesquisas acadêmicas são sobre o liberalismo. Pode explicar o que a levou a estudar essa temática e, filosoficamente, quais são os pontos fortes desta corrente?  

Andrea Faggion – Eu sempre fui liberal, mas, durante muito tempo, não tive a curiosidade de mergulhar a fundo na filosofia política ou em teorias da justiça. Acho que foram conversas informais com o Leonardo Cisneiros, um colega muito inteligente que me falou de Robert Nozick pela primeira vez, que despertaram em mim a vontade de estudar filosofia política e teorias da justiça mais a sério. Liberalismo significa muitas coisas. Voltamos ao problema das definições. É difícil encontrar um denominador comum a todo pensador liberal. Eu já fui uma liberal libertária à maneira de Nozick, mas, hoje em dia, não sou mais.  

Eu já fui uma liberal libertária à maneira de Nozick, mas, hoje em dia, não sou mais. O liberalismo que eu abraço agora tem mais em comum com Isaiah Berlin

O liberalismo que eu abraço agora tem mais em comum com Isaiah Berlin. Os libertários de direita costumam colocar um valor acima de todos os outros: a liberdade individual. Isso é questionável. Eu já me considerei capaz de responder essas questões, mas, hoje, penso que não haja boas respostas para elas. Simplesmente, não é o caso de um valor ético ter que preponderar acima de todos os outros; muito menos, dele ser único. Mas é aí que entra o liberalismo de Berlin, como uma alternativa mais sensata e razoável. Justamente porque existem diversos valores que conflitam entre si, dentre eles, a própria liberdade, sem que exista uma indicação racional de qual valor deva prevalecer, é que devemos ter o máximo possível de tolerância com as escolhas dos diferentes indivíduos.  

Espaço para a escolha individual 

O Estado deve preservar um espaço significativo de escolha individual. Para variar, claro, há muita discussão filosófica sobre essa implicação do pluralismo de valores para o liberalismo. Eu tendo a acreditar que um liberalismo moderado tenha vantagens sobre outras proposições políticas em um mundo plural, desde que ele não descambe para a crença fanática, reinante hoje, por exemplo, na direita brasileira, de que a liberdade econômica não pode ser restrita em nome de valor algum, justamente como se pudéssemos absolutizar um valor ou estabelecer uma hierarquia objetiva de valores com a liberdade econômica no topo. 

Eu tendo a acreditar que um liberalismo moderado tenha vantagens sobre outras proposições políticas em um mundo plural, desde que ele não descambe para a crença fanática, reinante hoje, por exemplo, na direita brasileira, de que a liberdade econômica não pode ser restrita em nome de valor algum

hp – Como suas pesquisas atuais se relacionam com suas primeiras pesquisas? Há conexões entre os problemas estudados ao longo da sua trajetória acadêmica? 

Andrea Faggion – Eu gosto de pensar que sim. Como eu era kantiana, a minha entrada na filosofia política se deu pela porta de Kant, sobretudo, porque leio Kant de um modo parecido com a leitura de Nozick, segundo a qual o imperativo moral kantiano proibiria qualquer ato coercitivo que não fosse a reação a uma violência explícita, o que, basicamente, inviabiliza moralmente o Estado. Isso significa que minha desilusão com o libertarianismo, uma teoria profundamente contra-intuitiva em seu rigorismo principiológico, foi a causa do meu abandono da filosofia kantiana. O que eu estudo hoje – com amplo destaque para Joseph Raz – é o resultado dessa busca por uma nova teoria da razão prática, livre de vícios kantianos, como a redução de toda objetividade a obrigações morais incondicionais. 

hp – A senhora também mantém um interesse específico por epistemologia. Que questões filosóficas lhe atraem nesta grande área? 

Andrea Faggion – Conservo meu interesse por epistemologia como disciplina formativa essencial, junto com a lógica. Quando cursei a disciplina de teoria do conhecimento na graduação, fiquei achando que deveríamos estudar essa disciplina por quatro anos primeiro e, só depois, estudarmos qualquer outra coisa. De certa maneira, ainda penso assim. A epistemologia analítica contemporânea traz imensas contribuições ao auto-conhecimento que eu penso ser o objetivo filosófico por excelência. Recomendo àqueles que se interessem por qualquer área da filosofia que usem a leitura de um bom compêndio de epistemologia analítica contemporânea como um estudo propedêutico.  

A mim, particularmente, interessa o debate sobre o conceito de conhecimento naquele algo mais que ele deveria juntar à crença verdadeira. O conhecimento sobre o mundo é um conhecimento proposicional. Seu objeto é uma proposição verdadeira. Poucos desafiam a ideia de que o sujeito que conhece acredita nessa proposição verdadeira. Porém, para se ter conhecimento, não basta acreditar em algo que, por acaso, é verdade. O que mais é preciso? Bom, aqui, começam os problemas que me interessam. 

hp – Como vê o desenvolvimento da filosofia no Brasil?  

Andrea Faggion – Tirando contribuições pontuais à lógica e alguma outra coisa aqui e ali, não somos significantes na filosofia mundial. Isso é verdade e precisa ser reconhecido. Acontece que a história de nossos departamentos se reduzem a décadas, não a séculos como nos grandes pólos de referência do mundo. Estamos engatinhando e temos engatinhado até que muito bem, fazendo história da filosofia de primeira qualidade, o que não é pouca coisa. Temos muita dificuldade, em especial, de passarmos da história da filosofia para a filosofia propriamente dita, com capacidade de publicação nas melhores revistas acadêmicas internacionais, porque isso requer uma inserção em uma comunidade da qual estamos separados por um oceano de distância. Não é por acaso que as poucas contribuições que registramos se concentram mais em lógica e áreas afins.  

Tirando contribuições pontuais à lógica e alguma outra coisa aqui e ali, não somos significantes na filosofia mundial. Isso é verdade e precisa ser reconhecido

Quando se faz filosofia política ou ética, por exemplo, não há os mesmos protocolos objetivos a serem seguidos em qualquer comunidade que se preze. Usa-se linguagem natural para tratar de problemas que nascem nos debates de cada comunidade. Então, nós ficamos no Brasil, olhando à distância uma conversa da qual não participamos em tempo real, para, depois, tentarmos dar uma contribuição a ela. Por exemplo, ocorre uma dezena de simpósios e workshops entre Inglaterra e EUA, nos quais acadêmicos desenvolvem um debate bastante peculiar. Anos depois, saem os artigos e os livros com os resultados desse debate. Aí, com muita dificuldade, temos acesso a esse produto no Brasil e escrevemos algo a respeito do produto, quando eles já se moveram para outra discussão. Quer dizer, sem participarmos do processo, queremos gerar um produto de igual qualidade. Isso é muito difícil de ocorrer. Daí que precisemos de esforços para trazermos pesquisadores para cá e enviarmos os nossos para lá. Nós precisamos do know how deles nesse tipo de debate para, depois, construirmos aqui a nossa própria comunidade, tão boa quanto a deles.  

Contudo, estamos sendo governados por gente que acredita que, na melhor das hipóteses, viagens para eventos acadêmicos sejam turismo com dinheiro público. Corremos o risco de regredirmos décadas, mesmo que seja curta a passagem dessa mentalidade pelo poder. 

hp – Como avalia o atual momento da produção filosófica mundial de publish or perish? Quais os ganhos e perdas desse modelo para a produção filosófica? 

Andrea Faggion – Eu acho que os ganhos são de controle do uso dos recursos obtidos como financiamento para pesquisa. Fica difícil não exigirmos produtos quantificáveis como prestação de contas desses recursos. Mas as perdas são imensas. Os pesquisadores são incentivados a continuarem sempre estudando as mesmas questões, e um pequeníssimo número de questões muito especializadas, para conseguirem publicar em quantidade. Só o tempo que se perde no processo da publicação, algo que se repete tantas vezes ao longo do ano, é um prejuízo para a pesquisa em si. Outra consequência terrível é a quantidade de bibliografia relativamente inútil gerada, em meio à qual perdemos tempo selecionando o que realmente vale a pena ser lido. 

hp – Que destino vislumbra para a filosofia nos dias de hoje, em que é crescente o avanço das ciências e da técnica?  

Andrea Faggion – O avanço das ciências e da técnica sempre traz novas questões filosóficas. Como um exemplo óbvio, pense nas questões que a mecânica quântica trouxe para a filosofia. Por isso, a filosofia nunca vai acabar por falta de questões. O que pode acontecer é que passemos a viver em um mundo completamente hedonista em que as pessoas não tenham mais o menor interesse em saber de si mesmas. Nos nossos dias, já é verdade que todos só querem distrações rápidas. As pessoas passam freneticamente de uma atividade à outra, procurando se ocupar o máximo possível, mas nunca por mais do que alguns minutos em uma coisa só, seja no trabalho ou nas horas de lazer. Elas parecem em uma fuga desesperada de si mesmas. Por isso, nem sequer fazem uma coisa só de cada vez. Tudo é feito com um olho no celular, que não pode perder nada. A atenção se torna cada vez mais algo meramente reativo. Ninguém planeja mais a que dar atenção; só reagem a notificações e alertas; consomem toda e qualquer bobagem que os amigos queiram divulgar.  

Vivemos em um Admirável Mundo Novo e, nele, não há muito espaço para reflexão. Só para respostas cegas a estímulos, estímulos, e mais estímulos

A grande maioria nem se dá conta do número de horas que perde no dia, justamente, porque acha que faz duas coisas ao mesmo tempo. Mas nunca fazemos duas coisas literalmente ao mesmo tempo. Nós apenas alternamos nossa atenção de uma coisa à outra sem parar, o que é contraprodutivo e estressante. Desnecessário dizer, esse modo de (des)atenção é avesso à filosofia, que requer uma mente descansada e capacidade para horas de concentração ininterrupta. Enfim, vivemos em um Admirável Mundo Novo e, nele, não há muito espaço para reflexão. Só para respostas cegas a estímulos, estímulos, e mais estímulos. 

hp – Entre os livros e artigos da sua produção, quais indicaria como os mais representativos do seu percurso intelectual e por quais razões?   

Andrea Faggion – Caso alguém tenha interesse pelo meu trabalho, eu mantenho uma página atualizada no site Academia.edu, em que meus textos podem ser baixados. Também reuni alguns ensaios de divulgação despretensiosos e informais em um livrinho que disponibilizei na loja do Kindle. Gostaria de ter disponibilizado esse material de divulgação gratuitamente, mas, como a Amazon não permite isso, precisei aceitar a cobrança do menor preço possível na loja, que é R$1,99. O objetivo não é vender livros, mas, sim, mostrar ao público de fora da academia uma amostra de problema filosófico e seu tratamento, de forma acessível àqueles que não possuem treinamento na área. Também estou gravando vídeoaulas para o meu canal no YouTube.   

hp – Poderia citar e comentar brevemente alguns livros de filosofia que considera fundamentais? 

Andrea Faggion – Já que eu mencionei a importância da Teoria do Conhecimento ou Epistemologia, como disciplina formativa, eu recomendo um importante compêndio que, felizmente, se encontra traduzido para o português e à venda nas principais livrarias do Brasil, o que nos livra do preço altíssimo do livro importado, outra dificuldade com que lutamos constantemente para fazermos filosofia de ponta no Brasil: GRECO, John; SOSA, Ernest (Orgs.). Compêndio de Epistemologia. Tradução de Alessandra Siedschlag Fernandes e Rogério Bettoni. São Paulo: Edições Loyola, 2012.” 

Não é nelas [coisas práticas] que reside o sentido da vida. Todo filósofo digno do nome sabia disso

hp – Que conselho pode dar para os estudantes de filosofia? 

Andrea Faggion – Só venha para a filosofia se isso for um chamado do âmago do seu ser. Ela será penosa demais para você sem esse chamado. Agora, se você ouvir esse chamado, não deixe de vir. As coisas práticas se ajeitam de uma forma ou de outra. No fim das contas, não é nelas que reside o sentido da vida. Acho que todo filósofo digno do nome sabia disso, por menos que sejam dados a concordâncias.  

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